Esta Arte Marcial tem por característica resgatar toda Tradição Marcial dos primórdios da civilização japonesa, quando o homem vivia perfeitamente integrado consigo mesmo e com o Universo. Neste conceito, através do treinamento captamos a energia do Grande Universo e depois passamos a utilizá-la, tendo o centro do corpo como área de difusão. Através da consciência do fluxo de energia tudo é possível e podemos esquecer o uso da força física. Com a meditação, esvaziamos a mente e com a prática do Shin’ei Taido também.

Com a mente e o interior pacificados, não há medo, nem raiva, nem angústia nem pânico; saímos das emoções e dos pensamentos. Se considerarmos isto como objetos do aprisionamento humano, entramos na dimensão da Consciencia, aonde nos conduz o Shin’ei Taido. Tanto homens, mulheres, pessoas de todas as idades podem se integrar nesta prática saudável.

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terça-feira, 29 de outubro de 2013

A Prática da Não-Contração – Parte 2

Ao mesmo tempo, sabemos que a pesquisa iniciada por Shimoda Sensei, levou ao desenvolvimento de novas posturas, sendo continuado por Yoshitaka Funakoshi com um pequeno grupo de estudantes, entre eles Shigeru Egami e Genshin Hironishi, segundo relatos do próprio Egami Sensei, e outros autores. O Karate-Do evoluia com o resultado de suas descobertas de uma movimentação mais natural, as posturas se modificam, com relação à mecânica corporal e livre de tensões desnecessárias. Muitas mudanças e novidades que ocorreram também foram desenvolvidas por Gigo Funakoshi Sensei e seu grupo de discípulos; como citam Harada Sensei, Layton, Cattel, entre outros autores. Posteriormente, a morte de seu Mestre Yoshitaka, Shigeru Egami Sensei e seus discípulos, como Aoki Sensei e Miyamoto Sensei, prosseguem as pesquisas. Egami Sensei escreveu: “As mudanças que aconteceram, não significam que foram simplesmente aspectos técnicos, mudanças também ocorreram na maneira de pensar. (Através) da prática você pode esclarecer a relação entre corpo e mente, entender a relação entre a própria mente e a mente do outro, e procurar os segredos mais íntimos do ser humano.” 

Após a morte de Gichin Funakoshi O’Sensei , autores como Hironishi e Sugimoto, citam dois estilos claramente diferentes ; no final dos anos 80, Sugimoto Sensei, classificaria ambos pela forma como a força é gerada, como estilo de contração e estilo do relaxamento:

1) Se a força se origina a partir de contração, isto faz com que permaneça dentro do corpo.

2) A força que é emitida e deixar-se fluir a partir de um único ponto.

Mestre Sugimoto diz que ambas são obviamente forças, porém têm características diferentes; o estilo aonde a força é obtida se contraindo os músculos de uma forma violenta, movimentos são interrompidos abruptamente, o que geraria os estalidos nas roupas de prática (Keiko-gi). Afirma que até mesmo a respiração seria inconscientemente interrompida na ocasião:

“Devido a esta contração todos os movimentos são limitados em seu raio de ação, a livre circulação é limitada, o ritmo da respiração é interrompido e a transpiração aparece. embora as técnicas podem parecer eficazes , e há uma sensação de muito trabalho físico, a maior parte da força está bloqueado dentro do corpo, em vez de sair . Devido a esta força de retenção ,todo o corpo vibra , produzindo a ilusão de que o movimento é forte e eficaz.”- dizia o Mestre. Já na não-contração, descreve que a força é emitida e liberada a partir de um ponto, que seria a força que as pesquisas de Funakoshi e seus discípulos verificaram. Mestre Sugimoto considerava ser um desperdício a energia retida no interior do corpo, não utilizada na transmissão real em direção ao objetivo.

Mestre Egami escreveu, em 1976: “Dois pontos são cruciais (em um tsuki): 1) Relaxamento e 2) concentração de força (Ki). Se o corpo está tenso ou rígido, o Ki (dos cotovelos, ombros, barriga, quadris e pernas) não pode ser liberado. A força não pode ser dispersa por todo o corpo, ela deve ser concentrada no punho sozinho”.

É muito interessante a citação de Isao Obata Sensei: “Karate é uma Arte que deve ser considerada como tal, com sua totalidade do pensamento filosófico e desenvolvimento da mente em harmonia com o corpo; se não for pensado dessa maneira, é sem valor. . . Ele seria como comer apenas a casca amarga da maçã , deixando a polpa interior intocada; é essa premissa fundamental que está sendo negligenciado hoje,(...).”

Após o término da Segunda Guerra Mundial, Egami Sensei prossegue na tentativa de descobrir se seu tsuki era verdadeiramente eficaz, descreve este dilema em 1972:

Egami Sensei escreve, em 1972 sobre o seu dilema, e sua decisão de que a única maneira de uma pesquisa eficaz, embora perigosa, seria receber golpes de Artistas Marciais pertencentes a vários estilos e Artes Marciais; e até mesmo de pessoas comuns, que não praticaram Artes Marciais: ”Se o ataque do adversário não tem qualquer efetividade de verdade, você não precisa seriamente impedi-lo, você não precisa mesmo de uma técnica. Um tsuki verdadeiramente eficaz deve ser combatido com um bloqueio sério ou técnica de evasão. É aí quando o verdadeiro treinamento (keiko) começa.” Afirmou que teria recebido milhares de golpes em seu abdômen e no rosto; e que, em sua avaliação, o que seria o segundo tipo de tsuki mais eficaz, por incrível que pareça, pertence ao grupo de pessoas que nunca praticaram Artes Marciais. Sensei atribuía este resultado ao fato de diferentes artistas marciais colocarem muita energia no punho e nas articulações do cotovelo e ombro, inevitavelmente bloqueando e dissipando a energia antes de atingir o objetivo; já os não-praticantes tinha um atitude de não-contração.

No início dos anos 50,quando Tadao Okuyama Sensei retorna ao Dojo de Waseda, demonstra a Egami Sensei um método de ataque eficaz que o envolveu, aonde tinha eliminado toda a tensão do punho, cotovelo e ombros. Egami Sensei descreve: “Eu fiquei atônito. a diferença não reside na forma, o que foi mudado foi pouco, mas no conceito. na verdade ele quebrou todos os precedentes; fez a minha mente começar tudo de novo e praticar com este novo conceito. minha maneira de prática era completamente diferente, a partir de movimentos rígidos; nosso ritmo parecia semelhante a um Pinocchio. Eu só consegui realizar o mesmo feito, após meses e meses de estudo com este jovem karateka.”

“Quando eu praticava, as imagens dos Mestres como Funakoshi O’Sensei, Takeshi Shimoda Sensei e Gigo Funakoshi Sensei, surgiam na minha mente, e eu podia ouvir suas palavras de forma clara, como se eles estivessem me ensinando no Dojo. Lembrei-me de como o Mestre me atingiu de uma forma natural e leve, como Shimoda fez isso de ânimo leve, mas com precisão, e como o mais jovem Funakoshi fez isso tão rápido e com tanta força, apesar de seus braços estarem pendurados ao lado do corpo. Lembrei-me, também, como eu não podia evitar o golpe e como doía quando me atingia.”

Egami Sensei expressou, em suas pesquisas, o desejo de Mestre Funakoshi, que transformações, levassem a possibilidade de qualquer um poder praticar, fossem homens, mulheres, crianças ou idosos. Ao eliminar a tensão muscular, os praticantes podem encontrar o seu próprio ritmo e o caminho para o corpo ideal, a mente e o espírito através da forma da não-contração.

Boa Reflexão.

Oss.

Baseado em artigos sobre Egami Sensei e o seu livro The Way of Karate , Beyond Technique.


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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A Prática da Não-Contração – Parte 1

Uma das coisas que me levou ao estudo do Shin’ei Taido e do Sogobudo, foram os estudos e a prática de Shigeru Egami Sensei; os conceitos que me foram transmitidos, são muito próximos do Aikido. Conceitos de uma fonte única para todas as Artes Marciais, de que o ser humano não pode esquecer-se de sua parte espiritual, que tudo é unidade, que não existem adversários e sim pessoas com medo, de que toda vida é preciosa, de que a natureza é preciosa; entre tantos outros. Encontrei muitos textos que falavam da pesquisa incessante de Egami Sensei, após a volta de Tadao Okuyama Sensei ao Dojo de Waseda; este último com uma técnica indefensável e extremamente devastadora. Muitos graduados de Waseda, após este acontecimento, inclusive Egamei Sensei, vão estudar com Okuyama Sensei e Noriaki Inoue Sensei. 

Egami Sensei escreveu tanto sobre a técnica, mostrando as dúvidas e descobertas de um praticante, sobre o aparente paradoxo da utilização da força muscular extrema e a eficácia da prática de relaxamento, levando a uma postura física e mental, em que o Ki circula livremente, tornando a técnica extremamente eficaz.

Egami Sensei cita em seu livro: "Os animais não são musculosos, por que um homem deve ser? Maleabilidade e flexibilidade são características naturais do corpo humano; rigidez é a marca da morte."

Devemos lembrar, que Tadao Okuyama Sensei e Shigeru Egami Sensei foram instrutores de Mitsusuke Harada Sensei por anos; e que além deles, também foram discípulos de Inoue Sensei : Aoki Sensei, o filho de Egami Sensei, ,Kawanabe Sensei, entre outros.

Segundo Kenji Tokitsu Sensei, que também pesquisou incessantemente a ação da energia na Arte Marcial, ele começa a perceber que a solução para a não-tensão na prática marcial, seria alcançar a unidade da mente e do espírito. Sobre isto, escreveu Egami Sensei:

“Eu refleti sobre o assunto, eu sofri, me atormentado e acabei descobrindo que existe um método espiritual Shinpo pelo qual a força está concentrada na técnica. A verdadeira força só aparece quando o corpo e o espírito são um só. Com essas conquistas eu, mais uma vez, me submergindo em treinamentos que me fazem superar a situação primária da arte do combate, o estado animal de combate, onde você busca ganhar a qualquer preço e sim se esforçar para alcançar uma fusão com o meu adversário. Eu saí do mundo de conflitos e encontrei-me em um mundo de harmonia e eu entendi que era dessa forma que eu seria capaz de encontrar o caminho, o verdadeiro caminho do Karate. A idéia de Harmonia e da forma como pode parecer frágil e fraco para um iniciante ou aqueles que valorizam o lugar da força física, mas não há nada mais forte do que a harmonia e o caminho, porque eles são colocados no pico mais alto da pesquisa dentro de uma Arte Marcial.”

Devido a extensão deste excelente texto, que nos mostra a caminhada e a evolução dos conceitos, resultantes da pesquisa e observação do trabalho de não-tensão (seja mental ou muscular) e tomada da consciência corporal; este texto será dividido em partes.

Vários autores fazem uma classificação interessante, dividindo em duas as tendências principais no que diz respeito à sua atitude em relação ao que consideram estudo de uma técnica eficaz: o estilo da “contração” e o estilo da “não- contração”. Cita-se, que quando o Mestre Gichin Funakoshi introduziu o Karate no Japão continental de forma definitiva em 1922, este era considerado como uma Arte Marcial de auto-defesa, de Okinawa com influência das Artes Marciais chinesas . As técnicas seriam realizadas com posições corporais mais altas; como pode se visto em vídeos antigos. Tecnicamente, defesas e ataques eram técnicas de braço e punho; muito poucas técnicas de perna; desde aquele período, posturas e técnicas têm sido amplamente pesquisadas, segundo escreveu Egami Sensei.

Quando Gichin Funakoshi O’Sensei começou a expansão de sua Arte na década de 1930, com mais de 60 anos de idade,ele tem uma forte aceitação e crescimento dentro do círculo universitário; porem, muitos estudantes, pareciam não compreender bem o que O’Sensei lhes ensinavas. Mestre Shigeru Egami mencionava que achavam que O’Sensei aplicava golpes de uma forma não-contraída; e a maioria dos alunos acreditava que ele assim o fazia por não ser capaz de tensionar seus músculos, devido à idade. Mestre Mitsusuke Harada também menciona como a técnica de Mestre Funakoshi conseguia parecer enganosamente suave: “O velho Mestre golpeava o makiwara mil vezes por dia , para a esquerda e para a direita levemente, soltando um suave som ‘hoi’; os socos de Funakoshi não pareciam fortes para o observador , mas eram, de fato , muitos poderosos .”

Em outro relato de Harada Sensei, o Mestre Funakoshi diz para o jovem discípulo: “Isto é como Itosu (ou Azato , Mestre Harada não se lembra ao certo qual dos dois foram citados por O’Sensei) poderia parar um homem”; e, logo após, Mestre Funakoshi o iria tocar levemente com um ippon -ken no tórax.

Mesmo sendo ensinados ao estilo da não-contração, os estudantes mais jovens treinavam com contração porque acreditavam que a contração era a forma certa de executar técnicas eficientes e fortes. No final dos anos trinta e década de 40, um espírito militarista prevalece, e, quando Yoshitaka (Gigo) Funakoshi Sensei, assume a instrução no lugar de seu pai , em 1932, depois do falecimento de Takeshi Shimoda Sensei devido a um processo pulmonar (gripe ou mesmo uma tuberculose não bem diagnosticada, Waka (Gigo) Sensei, sente estar muito doente (sua tuberculose, que vinha desde a infância, evoluía, que o levou ao óbito por gangrena ou abscesso pulmonar), e, parece ter enfatizado um treinamento forte, novamente. Alguns autores acham que, possivelmente, ambos fatores poderiam ter revivido o estilo de intensa contração muscular. O próprio Egami Sensei, no passado,também foi acometido de tuberculose pulmonar.

Kase Sensei cita em uma entrevista, que o próprio Waka Sensei, pede ao seu discípulo Tadao Okuyama para continuar as pesquisas de um caminho para a evolução da técnica. Depois disto, Okuyama Sensei, sai de Waseda, por anos, atendendo ao pedido de seu Mestre. Sabemos que ele foi para o núcleo da Omotoo Kyo,
 após a morte de Waka Sensei, e se torna discípulo de Inoue Sensei, com quem treinou por anos, até retornar a Waseda.

(continua)


Baseado em artigos sobre Egami Sensei e o seu livro The Way of Karate , Beyond Technique.


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domingo, 27 de outubro de 2013

As Três Portas da Libertação – Parte 3

Continuação do texto de Thich Nhat Hanh:

“A Terceira Porta da Liberação é a ausência de objetivo.

Não há nada a fazer, nada a realizar, nenhum programa a ser cumprido, nenhuma agenda. Esse é o ensinamento budista sobre os fins últimos do homem. A rosa tem que fazer alguma coisa? Não, o objetivo da rosa é apenas ser uma rosa. Seu objetivo é ser quem você é. Você não precisa sair correndo e se tornar outra pessoa. Você é maravilhoso do jeito que é. Esse ensinamento do Buda permite que a gente se divirta, contemple o céu azul e tudo o mais que é tão bom e refrescante no momento presente.


Não há nenhuma necessidade de inventar objetivos para depois correr atrás deles. Nós já temos tudo o que é necessário, já somos aquilo em que desejamos nos tornar. Somos todos Budas, por isso podemos dar a mão a um outro Buda e praticar a meditação andando. Esse é o ensinamento do Avatamsaka Sutra. Seja você mesmo, a vida é preciosa do jeito que é. Não há necessidade de correr, lutar, carregar fardos nem disputar coisas. Podemos apenas existir. Estar aqui, neste momento, neste lugar, já é uma forma profunda de meditação. A maioria das pessoas não acredita que caminhar sem pressa e despreocupadamente seja o bastante. As pessoas acham que lutar e competir são coisas normais e necessárias. Tente praticar a ausência de objetivos por cinco minutos apenas, e observe como será feliz durante esses cinco minutos.

O Sutra do Coração diz que não há nada para ser atingido. Nós não meditamos para atingir a iluminação, porque a iluminação já está em nós, conseqüentemente não há necessidade de busca-Ia. Não precisamos de propósitos nem de metas. Nossa prática não visa obter uma alta posição. Quando praticamos a ausência de objetivo, entendemos que nada nos falta, que já somos tudo o que queríamos ser. Nessa altura, nossa luta desesperada principia a cessar. Fazemos as pazes com o momento presente, e conseguimos observar a luz do sol entrando pela janela e ouvir o barulho da chuva. Não precisamos mais correr atrás de coisas externas. Podemos usufruir esse momento. As pessoas discutem como chegar ao Nirvana, mas na verdade já estamos lá. A ausência de objetivo e o Nirvana são uma coisa só.

'Ao acordar hoje de manhã eu sorri.

Vinte e quatro horas, novinhas em folha, ao meu dispor.

Tenho a firme intenção de viver plenamente cada momento do meu dia,

E olhar para todos os seres com o olhar da compaixão.'

Essas vinte e quatro horas são uma dádiva preciosa, que só poderemos usufruir completamente quando tivermos aberto a Terceira Porta da Liberação, que é a ausência de objetivo. Se pensarmos que temos vinte e quatro horas para realizar alguma coisa, o dia de hoje passa a ser um meio para atingir um fim. O momento de cortar madeira ou carregar água é o momento que temos para sermos felizes. Não devemos esperar que essas tarefas estejam terminadas para só então sermos felizes. Ser feliz agora significa não ter metas agora. Se não fizermos isto, andaremos em círculo pelo resto da vida. No momento presente, temos tudo o que necessitamos para fazer desse momento o mais feliz de nossas vidas, mesmo se estivermos com dor de cabeça ou com um resfriado. Não temos que esperar o resfriado acabar para poder ser felizes. Resfriar-se é parte da vida.

Alguém me perguntou: 'Você não está preocupado com a situação do mundo?' Eu respirei e respondi: 'O mais importante é não permitir que a ansiedade em relação aos acontecimentos mundiais encha o seu coração. Se o coração for preenchido pela ansiedade, você ficará doente, e não poderá ajudar quando for necessário.' Existem guerras - grandes e pequenas - em muitos lugares, e isso pode nos tornar ansiosos. A ansiedade é a doença de nosso tempo. Estamos sempre preocupados conosco, com a família, com os amigos, com o trabalho, e também com a situação do mundo. Se permitirmos que a preocupação inunde os nossos corações, mais cedo ou mais tarde ficaremos doentes.

É verdade que existe uma enorme quantidade de sofrimento por este mundo afora, mas o fato de saber disso não significa que estamos paralisados. Se praticarmos a respiração, a caminhada, a meditação e o trabalho com consciência, e fizermos o melhor que pudermos para ajudar os outros, teremos paz no coração. A preocupação não realiza nada. Mesmo se nos preocuparmos dez vezes mais, isso não melhorará em nada a situação do mundo. Na verdade, a ansiedade só faz piorar as coisas. Mesmo sabendo que nada é como gostaríamos que fosse, devemos ficar contentes mesmo assim, porque estamos dando o nosso melhor, e continuaremos a fazer isso. Se não soubermos respirar, sorrir e viver com atenção e profundidade cada momento de nossa vida, nunca poderemos ajudar ninguém. Sou feliz agora. Não me falta nada. Não espero nenhum tipo de felicidade adicional nem condições ideais para poder ser mais feliz ainda. A prática mais importante de todas é ausência de objetivo, em vez de ficar correndo atrás das coisas intensamente.

Aqueles dentre nós que tiveram a sorte de conhecer e praticar a atenção plena têm a responsabilidade de trazer paz e alegria para as suas vidas, mesmo que as condições do corpo, da mente ou do meio ambiente não sejam exatamente as que gostaríamos. Sem felicidade não poderemos ser um refúgio para os outros. Pergunte a si mesmo. O que estou esperando para ser feliz? Por que não fico feliz agora mesmo? Meu único desejo é ajudar vocês todos a entenderem isso. Como podemos inserir a prática da atenção plena na sociedade? Como podemos ajudar o maior número possível de pessoas a ser feliz e a ensinar a arte da atenção plena a outras pessoas? O número de pessoas capazes de gerar violência é muito grande, enquanto que um número muito reduzido sabe respirar e gerar felicidade. Todo novo dia representa mais uma oportunidade para ser feliz e ser um refúgio para os outros.

Não precisamos nos tornar nada além do que já somos. Não precisamos desempenhar nenhuma ação específica. Só precisamos ser felizes no momento presente, e dessa forma estaremos sendo úteis às pessoas que amamos e a toda a sociedade. A ausência de objetivo significa parar e entender que a felicidade está ao nosso alcance. Se for perguntado quanto tempo alguém precisa praticar para ser feliz, eu responderei que essa pessoa pode ser feliz imediatamente. A prática da ausência de objetivo é a prática da liberdade.”

Boa Reflexão.

Oss.

Baseado no livro “A Essência dos ensinamentos de Buda”, de Thich Nhat Hanh.


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sábado, 26 de outubro de 2013

As Três Portas da Libertação – Parte 2

Continuação do texto de Thich Nhat Hanh:

“A Segunda Porta da Liberação é a ausência de imagens.

Neste contexto, 'imagem' quer dizer uma aparência, ou um objeto da percepção. Quando vemos algo, é porque um sinal ou imagem aparece diante de nós, e é isso que chamamos de lakshana. Se a água, por exemplo, estiver em um recipiente quadrado, sua imagem é a 'quadratura' do recipiente. Se estiver em um recipiente redondo, será a 'redondeza'. Quando abrimos o congelador e tiramos gelo, a imagem recebida é de que a água está sólida. Os químicos chamam a água de 'H2O'. A neve nas montanhas e o vapor que se eleva da chaleira também são 'H2O'. Se 'H2O' estiver no momento redonda ou quadrada, líquida, gasosa ou sólida, dependerá das circunstâncias. As imagens são instrumentos para nosso uso, mas não são a verdade absoluta. Elas podem nos enganar. O Sutra do Diamante diz: 'Onde houver uma imagem, haverá uma ilusão'. As percepções costumam nos dizer tanto sobre quem percebe quanto sobre o objeto percebido. As aparências enganam.

A prática da Concentração na Ausência de Imagens é necessária para que possamos nos libertar. Sem enxergar além das imagens não atingiremos a realidade propriamente dita. Enquanto ficarmos presos às imagens - redondo, quadrado, sólido, líquido, gasoso - continuaremos a sofrer. Nada pode ser descrito em termos de uma imagem apenas. Mas sem imagens nós ficamos ansiosos. Nosso medo e nosso apego se devem a ficarmos presos a imagens. Até entendermos que todas as coisas têm uma natureza desprovida de imagens, continuaremos com medo e sofrendo. Para poder entrar em contato com a H2O, temos que esquecer de imagens tais como quadrado ou redondo, duro ou mole, pesado ou leve, em cima ou embaixo. A água, por si mesma, não é nenhuma dessas coisas. Só quando conseguirmos nos libertar das imagens estaremos aptos a penetrar no âmago da realidade. Enquanto não conseguirmos enxergar o oceano nos céus, continuaremos iludidos pelas imagens.

Um grande alívio advém quando rompemos as barreiras das imagens e atingimos o mundo que está além das imagens, o Nirvana. E onde devemos procurar este mundo sem imagens? Aqui mesmo, no meio do mundo das imagens. Se jogarmos a água fora, não haverá nenhuma forma de ter contato com a essência da água. Contatamos sua essência quando abrimos caminho através das imagens e chegamos à verdadeira natureza da interdependência dos seres. As três fases são a água, a não-água e a verdadeira água. A verdadeira água é a essência da água. O fundamento de sua existência não está sujeito ao nascimento nem à morte. Quando chegarmos a isso, não teremos mais medo de nada.

Quando chegarmos à ausência das imagens dentro das imagens, encontraremos o Tathagata. Esta é uma frase do Sutra do Diamante. Tathagata significa 'a natureza maravilhosa da Realidade'. Para ver a natureza maravilhosa da água é preciso olhar além das imagens (aparências) da água, e ver que ela é constituída de elementos não-água. Se você achar que a água é apenas água, que não pode ser o sol, a terra ou as flores, estará enganado. Terminará por entender que a água na verdade é o sol, a terra e as flores, e que apenas ao olhar para o sol, a terra e as flores você estará vendo a água. Isto é a 'ausência de imagens das imagens'. Um jardineiro orgânico que olha para uma casca de banana, folhas moitas ou galhos podres enxerga as flores, frutas e os legumes contidos neles. Ele saberia que as flores, as frutas e o lixo não têm existência independente. Ao aplicar esta compreensão a outras áreas de sua vida, o jardineiro pode atingir o despertar total."


Depois desta exposição sobre 'imagem', 'Realidade' e 'Ilusão', que nos faz refletir sobre a nossa prática, Mestre Thay, continua sua explicação:

"A ausência de imagens não é uma idéia apenas. Ao contemplar nossos filhos, vemos os elementos que os produziram. Eles são como são porque nossa cultura, economia, sociedade e nós mesmos somos do jeito que somos. Não podemos simplesmente culpar nossos filhos quando as coisas dão errado. Muitas causas e condições contribuíram. Quando soubermos transformar a nós mesmos e a sociedade, nossos filhos também se transformarão. Os jovens aprendem a escrever e ler, aprendem matemática, ciências, e outras matérias na escola para ajudá-los a ganhar a vida. Mas poucos currículos escolares ensinam os jovens a viver - como lidar com a raiva, como reconciliar os conflitos, como respirar, sorrir, como transformar as formações interiores. A educação necessita de uma revolução. Precisamos incentivar as escolas a ensinar a seus alunos a arte de viver em paz e harmonia. Não é fácil aprender a ler, escrever, ou resolver problemas matemáticos, mas as crianças conseguem. Aprender a respirar, sorrir e transformar a raiva também pode ser difícil, mas já vi muitos jovens conseguirem. Se ensinarmos às crianças valores adequados, quando elas tiverem apenas doze anos já saberão viver em harmonia com as outras pessoas.

Quando vamos além das imagens, entramos em um mundo onde não há medo nem culpa. Vemos a flor, a água e o nosso filho por um prisma que está além do tempo e do espaço. Sabemos que nossos ancestrais estão presentes dentro de nós, aqui e agora. Constatamos que Buda, Jesus, e todos os outros ancestrais espirituais não morreram. O Buda não pode ficar confinado há 2.600 anos. A flor não está limitada à sua breve manifestação. Tudo se manifesta por meio de imagem. Se ficarmos presos às imagens, sempre teremos medo de perder as manifestações específicas.

Quando um menino de oito anos que vivia em Plum Village morreu de repente, pedi a seu pai que mantivesse a plena consciência da presença do filho no ar que respirava e nas folhas de grama sob seus pés, e ele conseguiu fazer isso. Quando um conhecido professor de meditação vietnamita morreu, seu discípulo escreveu o seguinte poema:

'Irmãos de Darma, não se apeguem às imagens.

As montanhas e os rios que nos cercam são nossos professores.'

O Sutra do Diamante enumera quatro imagens - o eu, a pessoa, o ser vivo e o período de vida. Ficamos enredados na imagem eu, porque achamos que existem inúmeras coisas que não são eu. Mas quando contemplamos a questão com profundidade, vemos que não existe um eu separado e independente, o que nos liberta da imagem do eu. Entendemos então que para nos protegermos temos que proteger tudo o que não é nós mesmos.

Também ficamos enredados na imagem 'pessoa'. Separamos os seres humanos dos animais, árvores e pedras, e achamos que os não-humanos - peixes, vacas, plantas, terra, ar e mar - estão lá apenas para serem explorados por nós. As outras espécies também caçam para comer, mas não de uma forma exploratória como nós. Quando olhamos para a nossa espécie, vemos os elementos não-humanos contidos nela, e quando olhamos para os reinos animal, vegetal e mineral, vemos o elemento humano neles. Quando praticamos a Concentração na Ausência de Imagens, sabemos viver em harmonia com todas as espécies.

A terceira imagem é 'ser vivo'. Achamos que seres conscientes são diferentes de não-conscientes. Mas seres vivos ou sensíveis são feitos de espécies não-vivas ou não-sensíveis. Quando poluímos as espécies chamadas de não-vivas, como o ar ou os rios, estamos poluindo os seres vivos também. Se pensarmos na interdependência dos seres vivos e não-vivos imediatamente pararemos de agir deste modo.

A quarta imagem é 'período de vida', que é o período de tempo entre o nascimento e a morte. Nós achamos que só estamos vivos por um período específico de tempo, que teve um começo e terá um fim. Mas ao contemplar profundamente, constatamos que nunca nascemos e nunca morreremos, e nosso medo se dissolve. Com atenção plena, concentração e as Três Qualidades do Darma, podemos abrir a Porta da Liberação que é a ausência de imagens e conquista o maior de todos os alívios.”

(Continua)

Baseado no livro “A Essência dos ensinamentos de Buda”, de Thich Nhat Hanh.


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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

As Três Portas da Libertação – Parte 1

Este texto de Thich Nhat Hanh nos fala sobre as ‘Três Qualidades do Darma”, que são consideradas como as chaves de que dispomos para abrir as Três Portas da Libertação, a saber: o vazio, a ausência de imagens e a ausência de objetivo. As Escolas Budistas aceitam este ensinamento das Três Portas da Liberação ou Libertação. Essas três portas às vezes são chamadas de Três Concentrações. Mestre Thay diz que quando passamos por essas portas, adquirimos concentração e nos libertamos do medo, da confusão e da tristeza.

“A Primeira Porta da Liberação é o vazio.

O vazio sempre significa vazio de alguma coisa. O copo está vazio de água, e a tigela vazia de sopa. Nós estamos vazios de um eu independente e separado. Não podemos existir sozinhos. Só podemos existir em inter-relação com tudo o mais que existe no cosmos. A prática consiste em incentivar a compreensão do vazio durante todo o tempo. Aonde quer que vamos, entramos em contato com o vazio que existe em tudo. Olhamos para a mesa, o céu azul, o nosso amigo, a montanha, o rio, a raiva e a felicidade, entendendo que tudo isso está vazio de um eu independente e separado. Quando contemplamos essas coisas em profundidade, vemos a natureza interpenetrante e interdependente de tudo o que existe. O vazio não significa, em absoluto, não-existência. Significa Origem Interdependente, Impermanência e Não-eu.

Quando ouvimos falar de vazio, ficamos assustados. Mas depois de praticar por algum tempo, entendemos que as coisas realmente existem, só que de forma diferente do que pensávamos. O vazio é o Caminho do Meio entre a existência e a não-existência. A flor não se toma vazia quando murcha e morre, mas sempre foi vazia em sua essência. Ao olharmos em profundidade, vemos que a flor é composta de elementos não-flor - luz, espaço, nuvens, terra e consciência. Está vazia de um eu independente e separado. No Sutra do Diamante, aprendemos que um ser humano não é independente das outras espécies, e que para proteger os seres humanos é preciso proteger as espécies não-humanas. Se poluirmos o ar, a água, os vegetais e os minerais, estaremos destruindo nós mesmos. Temos que aprender a nos enxergar de outra maneira, vendo a nós mesmos naquelas coisas que sempre pensamos que estivessem fora de nós, e dissolvendo nossas falsas fronteiras.

No Vietnã, dizemos que se um cavalo estiver doente, todos os outros cavalos do estábulo recusam comida. Nossa felicidade e sofrimento são a felicidade e o sofrimento de todos. Quando agimos baseados no não-eu, nossa ações passam a estar em consonância com a realidade, e sabemos o que devemos fazer e não fazer. Quando temos consciência de que estamos todos ligados uns aos outros, adquirimos a Consciência do Vazio. A realidade está muito além de nossas idéias sobre ser e não ser. Dizer que uma flor existe não é exatamente correto, mas dizer que ela não existe também não é verdadeiro. O verdadeiro vazio é chamado de 'ser maravilhoso', porque está além da existência e da não-existência.

Quando comemos, devemos praticar a Porta da Liberação chamada de vazio. 'Eu sou este alimento. Este alimento sou eu.' Um dia, no Canadá, quando eu almoçava com a Sangha, um estudante me olhou e disse: ‘Estou alimentando você.’ Ele estava praticando a concentração no vazio. Cada vez que olhamos nosso prato de comida, podemos contemplar a natureza impermanente da comida. Esta é uma prática profunda, porque tem o poder de nos ajudar a enxergar a ‘Origem Interdependente’. Aquele que come e a comida ingerida são, por natureza, vazios. É por isso que a comunicação entre eles é perfeita. Quando praticamos a meditação andando de uma forma relaxada e pacífica, acontece a mesma coisa. Cada passo que damos não é dado apenas para nós, mas para o mundo. Quando olhamos para os outros, vemos sua felicidade e sofrimento ligados a nossa felicidade e sofrimento. 'A paz começa em mim mesmo.'

Todos aqueles que amamos um dia ficarão doentes e morrerão. Sem praticar a meditação no vazio, quando isto acontecer ficaremos arrasados. A Concentração no Vazio é uma forma de permanecer em contato com a vida como ela é, mas precisa ser praticada, e não apenas falada. Observamos nosso corpo e vemos as causas e condições que o fizeram existir - nossos pais, nosso país, o ar, e até mesmo as gerações futuras. Vamos além do tempo e do espaço, do eu e do meu, e experimentamos a verdadeira libertação. Se só estudarmos o vazio como uma filosofia, ele não será para nós uma Porta da Liberação. O vazio só se torna uma Porta da Liberação quando penetramos nele com profundidade, entendendo a natureza interdependente e o aparecimento conjunto de tudo o que existe.”

(Continua)

Baseado no livro “A Essência dos ensinamentos de Buda”, de Thich Nhat Hanh.


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sábado, 12 de outubro de 2013

Inoue Sensei e Pranin Sensei – Parte 2


Continuação do artigo de Stanley Pranin Sensei sobre como conheceu, sua relação com Inoue Sensei e as suas várias tentativas para obter entrevistas.

“Toquei a campainha e uma mulher diminuta, talvez na casa dos 70 anos, abriu a porta. Ela olha para cima, viu esse ‘gaijin’ enorme de seis-pés de altura, olhando-a no rosto, e eu pensei que ela iria desmaiar no local. Eu dei-lhe o envelope com a minha carta e a transcrição, eu me desculpei e parti. A carta dizia que Aiki News iria publicar a entrevista na próxima edição da revista como estava, uma vez que tinha tido sucesso na obtenção de assistência em fazer um trabalho de edição apropriada. Consideramos o papel de Inoue Sensei ser demasiado importante para ser ignorado, e fariamos o melhor que podíamos, etc ....

Eu, sem dúvida, causei um furor com a minha ação não ortodoxa, e eu tenho certeza que alguém foi repreendido. Ainda assim, quem era o seu primeiro secretário se recusou a permitir-me conhecê-lo. No final da minha sagacidade, um dia eu telefonei para a sede, e com o meu conhecimento útil do idioma japonês; do jeito que ele é, e começou a ficar louco, muito louco! Eu disse a ele que eu tinha certeza que ele estava fazendo seu trabalho o melhor que vi, mas que ele estava me impedindo de fazer o meu trabalho, que era para contar a história verdadeira da criação de Aikido. Ele não era consciente de que seu mestre, Inoue Sensei estava sendo caluniado e extirpado da história Aikido? Como pode este estado de coisas injusto ser corrigido sem a cooperação do lado de Inoue? Será que ele pensa que eu não estava sendo sincero em meu desejo de conceder a Inoue Sensei seu lugar de direito e de destaque na história do Aikido?

Ele ficou em silêncio, e meu editor japonês que tinha ouvido a conversa, olhou para mim sem acreditar! Mas funcionou. Pouco tempo depois, fui convidado para a casa de Inoue Sensei. Laden com fotos antigas e documentos históricos, meu editor japonês e eu fizemos o nosso caminho para sua casa. Fomos recebidos por Inoue Sensei, o chefe do escritório, e uma sala cheia de alunos. Acho que eles pensaram que eu era um ‘canhão solto’, e queriam ter certeza de que me comportaria corretamente! Felizmente, quando cheguei ele falando sobre os velhos tempos e " o que realmente aconteceu ", ele começou a ter um verdadeiro gosto por mim, e eu por ele. Isto ocorreu em 1986.

Posteriormente, por um período de dois anos, tive acesso quase irrestrito a Inoue Sensei, e sempre levava um gravador comigo desde que eu nunca sabia quando ele ia começar a falar sobre os velhos tempos. Eu nunca poderia fazer uma entrevista adequada com ele, então eu devo dar grande crédito para a minha equipe, que foram capazes de editar os manuscritos baseados nas gravações diversas, que lhes mostrei. Acho que publicamos quatro ou cinco entrevistas de Inoue Sensei durante este período.

Houveram vários destaques dos preciosos momentos que eu fui capaz de passar com Inoue Sensei. A primeira ocorreu no verão de 1987, quando fui convidado para participar do gasshuku anual deu em Kameoka na sede administrativa Omoto. Eu tinha permissão para filmar livremente suas aulas e tirar fotos das várias atividades em torno do evento. Eu tenho cerca de 5-6 horas de vídeo que nunca foram mostrados, guardados. O seu lugar é em nossos arquivos sobre o Aikido Journal membros do site. Um dia vou chegar a ele com o seu apoio e encorajamento.

A segunda foi uma grande manifestação pública que foi feita em Yotsuya em abril de 1988. Teve a assistência de uma platéia lotada, com cerca de 550 pessoas, que agarraram a oportunidade de ver esta lenda viva em ação, talvez pela primeira e única vez. Tudo foi filmado e fotografado. Inoue Sensei tinha 85 anos na época e não tinha muita mobilidade, mas ele ainda tinha uma presença forte e foi muito bem recebido. Aqueles que participaram eram muito conscientes da importância histórica do evento. Muitos artistas marciais se aprtesentaram, e alguns foram capazes de conhecer e conversar com Inoue Sensei na festa após o evento.

Eu tinha muito pouca interação com Inoue Sensei e seu grupo após a grande manifestação. Eu o tinha encontrado talvez 15-20 vezes e tive a sorte de ter um monte de informações, mas era difícil conseguir oportunidades para falar com ele, como eu sempre o encontrava em um ambiente de grupo. Além disso, eu estava muito ocupado com o trabalho relacionado ao Aiki News e viajava com Morihiro Saito Sensei, eu como seu intérprete naquele momento.

Muito mais tarde, em abril de 1994 , eu recebi a notícia de que Inoue Sensei faleceu na idade madura de 92 anos, continuando a ensinar até muito perto do final da sua vida. Eu assisti a sua cerimônia de funeral, juntamente com uma centena de outros enlutados, incluindo seu primo-irmão, Doshu Kisshomaru Ueshiba. Lá eu conheci um dos sobrinhos Inoue. Este acontecimento foi para levar a uma nova fase na minha pesquisa da história da família Ueshiba - Inoue e forneceu-me muita informação necessária e perspectiva para melhor estabelecer a importância deste relacionamento familiar no início da vida de Morihei.”

Oss.

Tradução do artigo de Stanley Pranin Sensei, no Blog Aikido Journal de 30 de outubro de 2011


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Inoue Sensei e Pranin Sensei – Parte 1

Achei este artigo de Stanley Pranin Sensei, em seu blog, aonde ele conta, com muito respeito e carinho, sua relação com Inoue Sensei e as suas várias tentativas para obter entrevistas. Segundo Kawanabe Shihan, Inoue Sensei era uma pessoa muito espiritualizada e reservada, não gostava de expor a vida familiar, e como o próprio Inoue disse em uma entrevista, não gostava de falar de fatos de pessoas que não estavam presentes, pois, muitas vezes, a memória pode nos enganar e seria bom o outro poder expor seu ponto de vista. É por isso que Stanley Pranin o entrevistou na presença de outros mestres que participaram desta caminha. Abaixo reproduzo o texto publicado no blog Aikido Journal.em 30 de outubro de 2011.

“Das áreas que explorei no meu longo estudo sobre a vida de Morihei Ueshiba e a criação de Aikido, eu acho que dois pontos em particular se destacam, por ter causado um repensar fundamental entre a comunidade de Aikido, de como nossa Arte evoluiu. O primeiro envolve o papel de Sokaku Takeda e sua Arte, Daito-ryu Aikijujutsu , para fornecer a base técnica para o que viria a emergir como Aikido. A segunda é o papel desempenhado pela família Inoue de Tanabe, especialmente o sobrinho de Morihei, Yoichiro , na progressão de eventos iniciais que permitiram o Fundador para prosseguir a sua carreira nas artes marciais e, eventualmente, desenvolver a Arte que praticamos hoje.

Curiosamente, minha exploração destes dois aspectos da história primitiva do Aikido resultou em muitos problemas para mim, pessoalmente e profissionalmente, devido às controvérsias que provocou. O papel de Sokaku tinha sido minimizada e distorcida, enquanto Yoichiro, mais tarde conhecido como Noriaki , havia sido relegado a um ‘pequeno coadjuvante’, nos relatos sobre a história do Aikido. Quando eu escrevi um artigo intitulado ‘Yoichiro Inoue, O Pioneiro Esquecido do Aikido’, cerca de dez anos atrás, que também foi publicado em japonês , causou um alvoroço nos bastidores, e um incidente muito embaraçoso para o pessoal da Aiki News no Japão e para mim.

Noriaki Inoue foi o filho da irmã mais velha de Morihei Ueshiba, Tame, e seu marido Zenzo Inoue ( pai de Yoichiro ), um dos mais ricos cidadãos Tanabe . Inoue e sua família estavam envolvidos em praticamente todos os passo importante tomado por Morihei , pelo menos até 1931, quando este tinha 47 anos de idade . Não seria um exagero dizer que os Ueshiba-Inoue atuaram como uma unidade famíliar conjunta, em muitas áreas, que preparam a base para Morihei ter a oportunidade de lançar a sua carreira nas Artes Marciais. Remeto os leitores para o artigo acima para um estudo detalhado dessa relação.

No início da década de 1980, bem cedo em minha pesquisa, eu comecei a notar que cada um dos alunos do pré-guerra de Morihei que eu conheci que freqüentemente mencionam ‘Yoichiro’ em seu relato dos acontecimentos dos primeiros dias do Aikido . Seus retratos de seu caráter e obras não foram sempre lisonjeiros, mas tornou-se evidente o papel de Yoichio, pelo menos como um instrutor sênior servindo como " braço direito " de Morihei durante um período de 15 anos. O fato de que este ‘Yoichiro’, então conhecido pelo nome de ‘Noriaki’, que ainda estava ensinando ativamente em Tóquio, começou a realmente despertar a minha curiosidade. Me propus a conhecer , e espero entrevistá-lo , para ouvir seu lado da história.

Dizer que isso iria ser um desafio seria um pouco de eufemismo. Meus esforços para ser recebido por Inoue Sensei foram ignorados ou rejeitados várias vezes. Eu não consigo lembrar a seqüência exata de eventos, mas provavelmente devido à minha persistência, ele finalmente concordou em me encontrar com a ressalva de que eu traga um par de ‘veteranos’, comigo. Este não era exatamente o que eu esperava, mas pelo menos ele me deu a chance de obter um ‘colocar o pé na porta entreaberta’, por assim dizer. Felizmente, eu era capaz de providenciar a presença de Shigemi Yonekawa e Zenzaburo Akazawa , que eu já havia entrevistado , para me acompanhar. Nós três finalmente encontramos Inoue Sensei em Tóquio, no dia 9 de dezembro de 1981. Eu estava quase totalmente excluído da discussão, mas conseguiu fita gravar tudo A transcrição dessa reunião existe, mas ainda permanece inédita.

Primeiro meu ‘colocar o pé na porta’ acabou por estar recebendo ‘a porta batendo no meu pé’. Meus esforços para estar com Inoue Sensei e fazer uma entrevista adequada foram bloqueados por sua relações-publicas, e eu finalmente desisti ... pelo menos naquele instante.

Finalmente, em 1986 eu não podia mais ficar sabendo que, talvez, a pessoa mais importante, depois do próprio Fundador, que ainda estava vivo e morando a poucos quilômetros de distância de mim. Eu decidi agir. Minha solução seria um plano diabólico que só um ‘gaijin henna’, poderia inventar. Tomei a transcrição da conversa gravada cinco anos antes, complementado por uma carta educada e dirigi-me para Kunitachi , a poucos quilômetros a oeste , onde ele morava.”

(Continua)

Tradução do artigo de Stanley Pranin Sensei, no Blog Aikido Journal de 30 de outubro de 2011


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