Esta Arte Marcial tem por característica resgatar toda Tradição Marcial dos primórdios da civilização japonesa, quando o homem vivia perfeitamente integrado consigo mesmo e com o Universo. Neste conceito, através do treinamento captamos a energia do Grande Universo e depois passamos a utilizá-la, tendo o centro do corpo como área de difusão. Através da consciência do fluxo de energia tudo é possível e podemos esquecer o uso da força física. Com a meditação, esvaziamos a mente e com a prática do Shin’ei Taido também.

Com a mente e o interior pacificados, não há medo, nem raiva, nem angústia nem pânico; saímos das emoções e dos pensamentos. Se considerarmos isto como objetos do aprisionamento humano, entramos na dimensão da Consciencia, aonde nos conduz o Shin’ei Taido. Tanto homens, mulheres, pessoas de todas as idades podem se integrar nesta prática saudável.

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terça-feira, 30 de julho de 2013

Compaixão e Kannon por Deishu Takahashi Sensei

Deishu Takahashi Sensei ou Deishu Koji (1835-1903), cunhado de Tesshu Yamaoka Sensei e Grande Mestre da Arte da Lança e instrutor de Artes Marcial durante o Shogunato Tokugawa.  

No Periodo Meiji, fez parte, assim como seu cunhado e outros tantos mestres e lideres, da Ryōmō Kyokai, que significa "Associação para o Abandono dos Conceitos de Objetividade e Subjetividade". Esta sociedade era composta de praticantes leigos de meditação Zen, sobre a orientação Soryu-kutsu Imakita Kosen Roshi, o chefe abade de Engaku-ji em Kamakura. Posteriormente, este grupo de meditação intensiva se chamou "Ryōbō Kyokai Zen" ou "Ryōbō Kai". 

Através de poesias e gravuras, Deishu Koji nos ensina que Kannon (Bodhisattva da Compaixão) faz o que for preciso para salvar os seres sencientes; nunca precisando de uma explicação ou razão, quando alguém quer ajuda, e escreveu:

"O verdadeiro despertar está além de perguntas e respostas.

Não há nada para afirmar ou negar,

Como Kannon, repouse na profunda sabedoria,

Estando o tempo todo presente no mundo..."

(...)

“Não temos um corpo divino.

Mas a Compaixão nos dá um corpo divino.

Não temos um poder divino,

Mas a honestidade pode nos dar um poder divino.

Não temos inteligência divina,

Mas a sabedoria pode nos dar inteligência divina.

Não podemos fazer milagres,

Mas se não criamos obstáculos, poderemos fazer milagres.

Não podemos salvar o mundo,

Mas a bondade nos habilitará a salvar o mundo.”

(...)

"Não há nada para explicar, nada para perguntar - esta é a verdadeira sabedoria.”

Boa Reflexão.

Oss.



Baseado em textos sobre Deishu Takahashi Sensei.

sábado, 27 de julho de 2013

Ki no Myo Yo





















Saotome Shihan foi Uchi Deshi , por mais de 15 anos, de Ueshiba O’Sensei, até 1969, de quem recebeu grandes ensinamentos, como a importância da integração da mente, espírito, respiração e Ki.

Assim como a técnica de Hachiriki, decrita por Kawanabe Shihan; Saotome Shihan nos fala em Ki no Myo Yo: método que nos afina com o Ki que criou todas as coisas do Universo. A respiração é a conexão entre o fogo e a água, o fluxo material e energético do Universo, estrutura do tempo e do espaço, leis do ritmo do Universo. Com o tempo de prática, é descrito que manifestamos a expressão da eterna energia pulsante, a realidade dentro da qual o espírito, a mente e a matéria são um só coisa.

Quando explicava o fluxo natural de ki, Ueshiba O’Sensei falava de Ki no Myo Yo como a “atuação misteriosa e profunda de Ki”.

Saotome Shihan neste trecho, quando escreve sobre o Ki, nos fala, ao mesmo tempo, sobre a vacuidade e a unicidade:

“A mente e as idéias controlam a nossa condição física. Isso é um tipo de processo energético. Entretanto, o verdadeiro poder do Ki não é encontrado na mente. Da limitada perspectiva da mente racional, jamais conseguiremos captar a essência do poder. A concentração no conhecimento intelectual anuviará as vibrações espirituais e só o que desenvolveremos será a estratégia: a maior barreira ao verdadeiro entendimento. Lógica, idéias e atitude psicológica, nada disso é necessariamente verdade; o espírito, porem, sempre é. O Ki e o espírito são uma só e a mesma coisa.”

Shihan relata que, tanto nas Artes Marciais como na prática meditativa e espiritual, sempre foi dada ênfase à prática da respiração, com o intuito de um Kokyu mais eficiente e com excelente atuação das propriedades purificadoras, como ele as define:

“Respirar não apenas fornece oxigênio ao corpo, como também transmite ao corpo e ao espírito as energias provenientes de todas as partes dos vastos espaços universais, radiação rica e viva, carregada da pulsação do amor de Deus.”

Seja sentado da maneira ocidental, seja em Seiza , devemos estar relaxados e inspirando profundamente, pelo com o foco no Hara, inspirando pelas narina, lenta e vigorosamente, expirando pela boca, com o ar partindo da profundidade do Tanden do Hara. Aos poucos, todas as células do corpo são infundidas, milímetro por milímetro, com a pulsação elétrica da vida. Embora momentaneamente retido no interior do corpo, o ar não fica estático, se difunde por todos os tecidos, carreando as vibrações vitais.

Pouco a pouco se adquire um ritmo respiratório e cardíaco mais lento; corpo, e mente experimentando o vazio, um fator essencial para o ego começar a ser transcendido.

Gradativamente, o numero de respirações diminui e o período de pausas aumenta, porem isto deve ocorrer naturalmente, sem o nosso desejo de controle ou de que isso ocorra.

Termino com esta definição de Saotome Shihan:

“A criação dentro do corpo, do espírito e do Universo é o sopro vivo do amor de Deus. A respiração é a força motriz da vida. Eis o poder de Kokyu.”

Boa Reflexão.

Oss.

Baseado em entrevistas de Hikitsuchi Sensei e no livro de Mitsugi Saotome Shihan “Aikido e a Harmonia da Natureza”.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

A Mente e a Vacuidade























Shabkar Tsogdruk Rangdrol (1781-1851), é provavelmente o mais famoso sábio no Tibete depois de Milarepa, sendo denominado o “Perfeito Eremita”; compositor de canções, composições de instrução, reflexão e inspiração.

Reverenciado pelos tibetanos, por sua santidade, simplicidade, possuir a capacidade de nos comover, motivar e fazer rir. Escreveu muitos livros, considerados como os mais inspirados da literatura tibetana; passando a maior parte da vida em retiros e peregrinações, visitando lugares sagrados do Tibet e do Himalaia.

Liberto das convenções sociais e eclesiásticas, embora monge, nunca dependeu de um mosteiro, mas visitou a todos. Amava a disciplina monástica, parecendo uma pessoa autêntica aos olhos de seus contemporâneos; sempre transitou pelas diferentes escolas budistas, nunca sendo sectarista, devido ao seu estilo de vida livre da dependência de benfeitores e tutela das instituições monásticas.

Reproduzo parte de seus escritos em que nos fala sobre a mente e a vacuidade:

"Em primeiro lugar, considere a fonte de sua mente, que conhecedor de felicidade e tristeza. De onde é que ela vem?

Vindo de fenômenos externos, como montanhas, rochas, água e árvores, ou o vento no céu?

Algo sólido ou algo intangível? Aonde encontrar a fonte ? (...)

Após a análise desta forma e não encontrar a fonte; examine o corpo, de cima a baixo; em seguida, os órgãos sensoriais, coração etc. Neste instante, onde está a mente? Se não está no coração, está acima ou abaixo? Que tipo de forma e cor?

Quando você tiver encontrado os restos (morada) da mente após um exame minucioso, tente determinar para onde a mente vai, quando ela se move. Através de qual porta dos órgãos sensoriais?

Quando atinge os objetos externos em uma fração de segundo, é o corpo que os alcança ou apenas o espírito? Ou o corpo e a mente estão juntos?

Desta forma, investigue e analise.

Quando uma emoção ou pensamento aparece pela primeira vez, encontre o local de onde isto vem. Então, neste momento, olha aonde isto permanece e veja se tem ou não, cor e forma.

Finalmente, quando desaparece espontaneamente, localize em que parte desapareceu.

Investiga qual a participação mente no momento da morte, esta análise especificamente até que tinha estabelecido com certeza, é indescritível e completamente vazia.

Não existe benefício em repetir os exemplos e declarações de outros, repetindo como um papagaio: "Isto é a vacuidade!" (...)

Quando, não há distinção entre as aparências e a vacuidade, então a visão perfeita foi alcançada.

Quando não há distinção entre o sonho e a vigília, então a perfeita meditação foi alcançada.

Quando não há distinção entre o prazer e o sofrimento, então a perfeita realização é alcançada.

Quando não há distinção entre esta vida e a próxima, então sua condição existencial original foi alcançada.

Quando não há distinção entre sua mente e do céu, então o Dharmakaya foi alcançado.

Quando não há distinção entre a sua mente e a do Buda, então, a meta foi alcançada."

Boa Reflexão.

Oss.
Tradução de várias versões sobre o “Vôo da Garuda”, de Mestre Shabkar Tsogdruk Rangdrol.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Funatori Furutama - Meditação Ativa

























Muitos autores falam sobre meditações ativas e meditação caminhando, porém, encontrei artigos sobre a técnica do Funatori Furutama como uma prática meditativa de respiração, que nos conduz ao estado de mente vazia.

Saotome Shihan, nos revela que Morihei Ueshiba O’Sensei começava os treinos com “esta prática meditativa de respiração profunda”, segundo suas palavras. Está prática nos conduz a uma “abertura e flexibilidade da mente e espírito” (ou aura, segundo Saotome Shihan), possibilitando a transcendência do Ego.

Muito conhecido dos praticantes de Aikido e Shin’ei Taido, Funatori Furutama, é conhecido como o “Movimento do Barqueiro”, mas também era o movimentos dos Samurais, quando estes conduziam seus braços para as batalhas.

Quanto a sua execução como prática meditativa respiratória, Saotome Shihan ressalta a importância da presença de um mestre ou instrutor experiente, pois ele recomendada a realização por 30 a 60 minutos, não devendo ser tentado pelo iniciante. Como outras técnicas, é prudente começar aos poucos, com períodos de tempos menores, até chegar ao proposto por Shihan.

Existe a indicação, de que o corpo do praticante dever estar com condicionamento, ser praticado com cautela, pouco a pouco, pois se trata de um Misogi. Com o tempo de prática, a transpiração se tornará abundante, passando do período de intenção purificação física, para a fase de mente clarificada, como fala Sensei. A prática deve ser bem conduzida, para o praticante não fazer a respiração muito rápidamente, causando hiperventilação, o que causaria vertigens e náuseas.

Diz Saotome Shihan que não devemos nos fixar a imagens e pensamentos que começam a aparecer na mente; ao mesmo tempo o praticante não deve ansiar pelo Satori ou iluminação, apenas praticar e se fazer vazio.

Ao longo da prática, o ritmo se torna regular, natural e inconsciente, com o corpo captando as vibrações , harmonizando a aura espiritual com o Universo; se torna tudo uma coisa só: corpo e espírito se esvaziam, se fundindo com o espaço circundante. A mente, neste estado de purificação, transcende o ego agressivo, não mais acreditando na divisão, experimentando a Unicidade e a paz da mente universal.

Com o tempo esse treinamento o ajudará a purificar e enriquecer a função de Ki, afastando da mente a idéia de “Ki forte e Ki fraco”, pois segundo as palavras de Saotome Shihan:

“É a pureza do vazio que abre espaço para o poder do Universo entrar em nosso espírito, o espelho que reflete o que está a volta sem interferência do ego.”

Boa Reflexão.

Oss.

Baseado no texto do livro de Mitsugi Saotome Shihan “Aikido e a Harmonia da Natureza.”

domingo, 21 de julho de 2013

A Clara Percepção de Shōju Rojin




















O Mestre Shōju Rojin ou Dokyo Etan (1642-1721), tambem Shōju Etan ou Shōju Rojin, passou a ser conhecido como "O Velho Homem do Eremitério de Shoju-an" (que muitos dizem ser uma cabana). Além de grande Mestre do Zen, era conhecido como grande Mestre do Budo, famoso por sua técnica de “Espancar para Dominar Espadachins”.

Era filho natural de Sanada Nobuyuki, o senhor da Matsushiro na província de Shinano. Depois da morte de seu pai, Shōju foi adotado e criado por Matsudaira Tadatomo, no Castelo de Iiyama . O menino sempre mostrou uma aptidão precoce de religião, tendo uma grande iluminação aos 15 anos de idade; dizem que foi logo após uma queda repentina de um lance de escada. Aos dezoito anos, ele acompanhou Matsudaira Tadatomo para Edo, onde foi ordenado por Shido Munan no Monastério de Tohoku-an, sendo que, um ano após, recebe a confirmação da iluminação de Munan. Depois peregrinar por seis anos, durante os quais ele estudou com Mestres do nordeste do Japão, ele retorna para Tohoku-an, ficando com Shido Munan, até este morrer em 1676.

Mestre Shoju, disse que esperou até a idade de 55 anos para alcançar a continuidade na "percepção correta", com “uma clara visão da mente clara” (conforme suas próprias palavras). Ele atribuiu tanta importância isto, que ele chamou seu eremitério de "Cabana da Percepção justa".

Poucos monges que se aventuraram a conhecer o homem de idade, um descendente direto de uma linhagem antiga, e que tornou-se um dos maiores mestres do Japão. Alguns samurais, no entanto, não hesitavam em chamá-lo, com o intuito de progredir na iluminação da mente.

Um dia, um samurai muito orgulhoso, que dizia ter praticado “concentração Zen”, foi ter com o Mestre, e depois de expor todas as suas teorias sobre a Arte da Espada para Shoju, foi puxando a espada antes que o Mestre.

Subitamente, o Mestre deu um salto, e prontamente golpeou o arrogante com a mão vazia, fazendo cair no chão, sem fôlego. Shoju Zenji disse:

“Você não passa de um balão de ar quente.”

Este encontro ficou famoso, e cinco mestres samurais foram visitá-lo para que ele avaliasse a técnica deles. Na verdade, os guerreiros acreditavam que o Mestre usava apenas o elemento surpresa e logo o desafiaram. Os guerreiros ofereceram ao velho uma espada de madeira, mas o Mestre recusou, argumentando que um monge budista não deve brandir uma arma, mesmo sendo madeira;, ele usaria seu bastão de monge, tempo suficiente para a sua defesa.

"Tentem me alcançar" – disse o Mestre. Os samurais não poderiam recusar tal desafio, com as suas espadas, eles atacaram o velho de todos os ângulos. Mas como era uma demonstração virtuosa na Arte de defesa.

Cada golpe foi habilmente defendido, e todos receberam, elo menos, um golpe de bastão em suas cabeças. A admiração pelo Mestre cresceu, e correspondentemente, foi diminuindo força deles. Esgotados fisicamente, os guerreiros admitiram que o Mestre seria capaz de transformar a vontade de seu conhecimento, que eles consideravam abstrato, em ação concreta. Um deles perguntou qual era o seu segredo. Disse, então, o velho Mestre:

" Não há mistério nenhum, quando a sua percepção de objetivo é clara, você “voa” em seus golpes. Sendo o seu olhar verdadeiro, estando com sua mente desobstruída, não existe nada que possa ser superado, inclusive um ataque de espada."

Boa Reflexão.

Oss.

Baseado em artigos sobre Shōju Rojin Zenji.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

A Prática e o Ki






















Muito se lê e se discute sobre este assunto; muitos Mestres nos apontam para a prática sincera e manter a mente de principiante, uma mente receptiva e sem pré-concepções., Saotome Shihan escreveu um artigo, que acho que nos esclarece muito bem este aspecto:

“ Que é Ki? Eis, provavelmente, uma das perguntas de mais difícil resposta – e, no entanto, ela é muito simples. (...)

Muitos praticantes de Aikido procuram um tipo especial de energia mágica a escorrer das extremidades das mãos estendidas, achando que o seu progresso depende desse elemento místico. Mas, desde os tempos antigos, o termo Ki representa algo que permeia os aspectos mais insignificantes do dia-a-dia. Ki é vibração, como são a luz e o som. A claridade solar é Ki; o trovão é Ki; o vento é Ki. Ele é infinitesimal como o átomo e pujante como a galáxia. Constitui a essência vital do Universo, a força criadora de Deus. Ki enche o Universo e tudo o que ele contém desde o começo até a eternidade. (...)

Já ouvi quem dissesse: ‘Eu não tenho Ki’. Isso é um absurdo. Se você não tivesse Ki, não poderia dizer: ‘Eu não tenho Ki’ – porque, se não tivesse Ki, não teria vida.Talvez você não compreenda o que é o Ki, mas você percebe. (...)

A mente e as ideias controlam a nossa condição física. Isso é um tipo de processo energético. Entretanto, o verdadeiro pode do Ki não é encontrado na mente. Da limitada perspectiva da mente racional, jamais conseguiremos captar a essência do poder. A concentração no conhecimento intelectual anuviará as vibrações espirituais e só o que desenvolveremos será a estratégia: a maior barreira ao verdadeiro entendimento. Lógica, ideias e atitude psicológica, nada disso é necessariamente verdade. O espírito, porém, sempre é. O Ki e o espírito são uma só e a mesma coisa.

Um dia perguntei a O’Sensei:’Como o senhor pode ver Deus?’ Ele apontou para si mesmo e depois para mim: ‘Meu Deus percebe o seu Deus’. O corpo humano é o movimento e a essência do Universo, condensados numa forma – a forma de Deus. O corpo todo e o espaço espiritual que o rodeia são um cérebro; cada nervo e célula, internos ou externos, cada microunidade de espaço na aura espiritual são um receptor da essência de Ki.”

Boa Reflexão.

Oss.



Baseado no livro de Mitsugi Saotome Shihan “Aikido e a Harmonia da Natureza”.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Harmonização Universal e Budo





















Como comentei antes, Kawanabe Shihan me contava sobre a prática da Harmonização na prática do Budo, que está muito além da explicação; relatando que Inoue Doshu ressaltava a importância desta prática, inclusive da utilização das palavras.


Saotome Sensei, escreveu, em seu livro:

“O maior dos desafios, para os Mestres Iluminados do Budo, é definir e explicar a sua compreensão dos segredos da energia e do poder. (...) Procuravam demonstrar a sua compreensão por meio da técnica, mas a conexão em movimento técnico e espiritual que exprime com clareza os verdadeiros princípios do poder, do supremo poder encontrado nos fenômenos universais.

Cada técnica é uma demonstração patente da circulação de energia pelo Cosmos, réplica exata do que se dá em nosso corpo. Com a prática e o estudo, as verdades do espírito e as verdades da ciência se fundem numa compreensão contemplativa e intuitiva que não pode ser expressa em palavras. De uma confortável situação num vale, não podemos avistar do cume da montanha, sem a experiência da escalada (...) a experiência é o verdadeiro conhecimento.”

Creio que esta palestra de Morihei Ueshiba O’Sensei, nos esclarece muito:

“Poucos Mestres e filósofos conseguiram realmente encarnar a verdade e exprimi-la com todo o seu ser. Os seus ensinamentos, veiculados unicamente pelas palavras, só podiam disciplinar a mente. Verdade e lógica são coisas diferentes.

Para descobrir a verdade e atingir o poder supremo do Universo, há três formas de treinamento que devem ser empreendidas simultaneamente. Você precisa disciplinar a mente a fim de harmonizar-se com o movimento do Universo; precisa exercitar o corpo a fim de harmonizar-se com o movimento do Universo; e precisa treina o Ki, o poder do espírito que unifica a mente e o corpo, a fim de harmonizar-se com o movimento do Universo.

Para que sua mente entre em harmonia com o Universo, as suas palavras também devem estar em harmonia com o Universo. Essas palavras têm de ser uma só coisa com Kami. Em seguida, os movimentos do corpo físico e as ações têm de estar em harmonia com as palavras. Tal é o segredo a mim transmitido pelo Budo. Quando aprendi a essência do Universo por meio do treinamento do Budo, descobri que, primeiro, o corpo físico e a mente precisam estar unidos por Ki a fim de, juntos, associarem-se ao movimento universal.

É graças à miraculosa função de Ki que você conseguirá unificar mente e corpo, transformando depois essa união numa só coisa com os poderes do Universo. Pela prática correta, chegará naturalmente compreender a Verdade Universal, sua mente brilhará e o seu corpo vivificará de saúde. Você crerá ser possível solucionar todos os conflitos e transformar este mundo num lugar pelo de Paz. Entretanto, se a miraculosa função de Ki for mal utilizada, corpo e mente desabarão na desordem e o Universo se transformará em caos. É essencial que mantenhamos mente-corpo-Ki em harmonia com os ritmos do movimento universal.”

Boa Reflexão.

Oss.

Baseado em ensinamentos de Kawanabe Shihan, de Morihei Ueshiba O’Sensei e no livro de Mitsugi Saotome Shihan “Aikido and the Harmony of Nature”.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Aiki, Budo e Michi

Quanto ao Caminho Espiritual e a Via do Coração, a expressão de Michi; li um trecho das memórias de Morihei Ueshiba O’Sensei, que penso que reflete bem este aspecto:

“O Amor dá forma ao Universo, purificando todas as coisas. O Universo, então. lança as sementes a partir das quais todas as coisas nascem; contem o Poder Infinito que as nutre e faz com que elas prosperem. Denominei de Aiki as múltiplas leis do Universo, provindas do Amor, que governam o destino da complicada ação de tecelagem da vida, a medida que vai sendo realizada neste mundo. Cumprir a missão da Compaixão Universal na Terra, proteger e cultivar todas as coisas da Natureza; esta é a missão do Aikido.

Qual é a fonte da materialização da Vida no Universo? É a expressão do Espírito Infinito e Do Amor; Aikido é a expressão pura desta fonte, ele é o Caminho Original para a abençoada Harmonia da Humanidade com o Universo.

Somente seguindo o Principio Aiki da unidade com Kami, desenvolvendo a humanidade ao equilíbrio com todas as coisas, só assim seremos parte do infinito crescimento rumo à Perfeição. Promover o fim da malicia e do sofrimento, é a missão que nos foi confiada pelo Universo.

As formas reais do Universo revelam-se no corpo humano, temos que começar a ver o Universo dentro de nós e acordar para os princípios do Equilíbrio e do Amor, princípios estes sagrados, que nos foi dado pelo Universo. O Universo se desdobra num mosaico sem fim de formas, cada qual um aspecto diferente de sua Plenitude, cada uma estando em equilíbrio com as demais. Assim, como o Universo exprime o Amor de diferentes maneiras, precisamos exprimir através de nossas vidas este equilíbrio dinâmico e esta Harmonia do Universo em todas as nossas relações. Graças a este processo, o próprio Universo penetra no corpo e no Espírito Humano, concedendo-lhes, verdadeiramente, alimento e poder.

Todas as coisas do Universo provêm de uma única fonte, da Energia da Criação. Tudo no mundo é expressão deste Amor Universal; o Coração do Universo pulsa em Harmonia com toda a Criação e curva-se em reverencia diante de todas as suas Glórias. Cada um deve se esforçar para compreender este ritmo e sentir o Coração do Universo, que dá nascimento à Harmonia do Equilíbrio Perfeito. A missão do Aikido segue este Caminho Absoluto do Amor Universal, seus ensinamentos são os Ensinamentos do Kami; seus princípios são as da Harmonia e do Equilíbrio entre todos os elementos, na Criação da vida na Terra. Seu objetivo, é juntar-se ao Coração do Universo e disseminar o Amor.”

Boa Reflexão.

Oss.

Tradução de artigos de Morihei Ueshiba O’Sensei, reproduzidos por Saotomi Sensei.

domingo, 14 de julho de 2013

Bodhisattva Kannon e o Senso-ji






















Após a visita ao Templo Budista Senso-ji, eu pude compreender um pouco mais sobre o Caminho do Coração das Artes Marciais , assim como as palavras de Ueshiba O'Sensei e outros Grandes Mestres. Este Templo está localizado em Asakusa, no bairro de Taito; considerado o mais antigo templo em Tóquio e um dos mais significativos, é dedicado à divindade Bodhisattva Kannon.


A lenda diz que, em 17 de Maio 628, durante o reinado da imperatriz Suiko, dois irmãos Hinokuma (Hamanari e Takenari) pescavam no Rio Sumida, quando encontraram em suas redes uma estátua da deusa Kannon; esta descoberta chegou aos ouvidos do senhor da, então, vila, Haji no Nakamoto, que mandou chamar os irmãos. Quando os irmãos chegaram, Nakamoto San começou a fazer um apaixonado sermão de Buda, falando que Kannon é um Bodhisattva e explicando sua natureza.

Os irmãos Hinokuma ficaram muito impressionados e se converteram ao Budismo. Haji no Nakamoto reconheceu a santidade da estátua, se dedicando a remodelar a sua casa em um pequeno templo em Asakusa, para que os moradores pudessem adorar a estátua de Kannon; após isto os três homens se consagraram a pregar o Caminho Budista.




O primeiro templo foi construído em 645 e o Xogun Tokugawa Ieyasu designa Templo de Senso-ji como templo sob a tutela do clã Tokugawa, estando associado à seita Tendai, sendo que após 1946, torna-se independente. 

Temos, na entrada, o denominado “Portão do Trovão” (Kaminarimon), que possui uma enorme lanterna de papel pintada de vermelho e com kanjis em preto, representando nuvens de tempestade e relâmpagos. A enorme lanterna é recolhida no Festival, devido ao enorme numero de transeuntes. Se observarem os kanjis, da lanterna, na parte frontal esta escrito, Kaminarimon (雷門); já no verso encontraremos o seu nome integral Fūraijinmon (風雷神門).

A rua de acesso ao Templo se chama Nakamise-Dori, do início do século 18, quando foi concedida a permissão para lojas no acesso ao templo. Em 1885, esta rua teve suas lojas reconstruídas em alvenaria, no estilo ocidental. Em 1923, com o Grande Terremoto de Kanto, muitas lojas foram destruídas; passou por reconstruções sucessivas em 1925 e depois de 1945.


Após esta rua, encontramos o segundo portal, designado como o “Portão da Casa do Tesouro” (Hōzōmon). Observando esta construção, encontraremos duas figuras dos Guardiões do Buda, os denominados Niō, uma estátua de cada lado. De acordo com a Tradição japonesa, eles teriam viajado com o Buda historic, para protegê-lo e são considerados manifestações do Bodhisattva Vajrapāni. Já os kanjis desta lanterna exibem o nome da cidade Kobunachō (小舟 町), pois em 2003, a população daquela localidade fez uma enorme doação em comemoração aos 400 anos do início do período Edo,

Ambos os Portais foram construídos por Taíra no Kinmasa, o externo em 941 e o externo em 942; ambas refeitas pelo primeiro Shogun Tokugawa.


No interior do complexo, após passarmos o portal, ao lado encontramos imponente pagode de cinco andares, com um sistema de pendulo, para evitar que seja destruída por terremotos (dizem que este sistema surgiu no século 17) e, ao fundo, a construção principal dedicada a Kannon Bosatsu.

Neste complexo O Senso-ji é realizado, todos os anos, a maior e mais popular Festividade Xintoista de Tóquio; denominada Sanja Matsuri, dura cerca de quatro dias, comemorando o final da primavera.

Morihei Ueshiba O’Sensei escreveu em suas memórias:

“Eu anseio pelo dia quando este venha a ser, eu gostaria de ver todas as pessoas se dispusessem a mudar em si mesmos, se tornando como o Bodhisattva Kannon (Avalokitesvara).”

Boa Semana.

Oss.

Baseado em informações de Reiko Ishii Sensei durante nossa visita ao Complexo do Templo, Texto de Morihei Ueshiba O’Sensei e artigos sobre o Templo em Asakusa.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Budo e o Monte Kurama























O Monte Kurama (ou Kurama Yama) está a 570 metros acima do nível do mar, situado a 12 km ao norte do Palácio Imperial de Kyoto. Atualmente é muito fácil chegar a esta localidade partindo de Kyoto, seja de trem, ônibus ou carro ; hoje contamos com um pequeno trem para ascender. O templo (Kurama Dera) foi fundado em 770 para proteger a parte norte da capital imperial da época (Heiankyo); localizado no meio do caminho até o cume. Os edifícios originais foram destruídas várias vezes pelo fogo. O templo pertencia ao Budismo Tendai, mas desde 1947, é sede para uma nova seita chamada Kurama-Kokyo. A edificação principal foi reconstruída pela última vez em 1971.



Conta a Tradição, que há mais de seis milhões de anos atrás, o Maô-son no Kami, desceu ao Monte Kurama, vindo de Vênus, com a grande missão de salvar a humanidade. Uma antiga lenda conta que um meteorito de Vênus riscou o céu, e tendo quebrado em três partes: uma parte caiu em Kumano, outra no Monte Takayama e a porção que trouxe Maô-son, no Monte Kurama. Desde então, diz-se que o poderoso Kami regula o desenvolvimento e a evolução da humanidade e de todos os outros seres vivos na Terra.




Segundo a lenda, um monge chamado Gantei, em 770 teve um sonho que ele deveria deixar-se guiar para um lugar sagrado na sela de um cavalo branco. Ele seguiu as instruções do sonho e seu cavalo o levou até esta montanha, e subindo,foi atacado por um demônio, mas resgatado pela divindade budista, Bishamon-ten. Após isto, para agradecer, foi construído um pequeno templo budista naquele local (Bishamon-tem considerado o espírito protetor parte norte do Céu e correspondendo ao Sol).

Em 796, Isendo Fujiwara, oficial encarregado da construção do templo Toji, teve uma visão de Senju-Kannon, e orientado a construir templos e pagodes na montanha (Senju Kanzeon Bosatsu é Kannon Bodhisattva dos mil brações e associado a Lua). Em um sonho-revelação Fujiwara viu que havia uma ligação fundamental entre Bishamon-ten e Bodhisattva Senju Kannon; assim,o templo reconstruído de Gantei, tornou-se local para a adoração conjunta de Maô-son, Senju Kannon e Bishamonten.

Diz-se que o templo ficou conhecido como Kurama Dera (Templo do cavalo de sela), devido à Gantei e Fujiwara terem sido guiados até lá na sela de um cavalo.

Outras divindades Monte Kurama incluem Amida Butsu - Buda da Luz Infinita e da vida (Amida Nyorai na tradição esotérica), cuja estátua gigante se encontra na base deste monte, e a divindade de Fudo Myo-ô (o Uno Inamovível: aquele é inabalável, incorrompível), patrono das Artes Marciais e auxilia os seus devotos na prática do Dharma; cuja imagem está entronizada no Sojogadani Fudo Do,no alto das montanhas. Diz-se que com a prática da Meditação da “Chama Emissora” (Kasho zammai), Fudo-Myô exala uma chama e destrói todos os obstáculos cármicos.

Além disto, encontramos pequenos santuários dedicados a outras divindades do Xinto, como o Santuário de Kibune Jinja, dedicado a vários Kami como a divindade da água e o Yui no Yashiro, dedicado à divindade do bom casamento.




Kurama Yama é também um lugar importante para as Artes Marciais, por ser considerado o lar dos Tengu, que transmitem os segredos do Budo para os guerreiros mais dignos. Quanto a esta tradição, temos a figura de Minamoto no Yoshitune, cujo festival é na data de 15 de setembro; quando é adorado com seu nome de infância (Sanao),com exibições de Escolas de Kendo e Kenjutsu. Conta a Tradição, que este filho dos Minamoto, é separado de sua mãe e irmão, e enviado ao templo do Monte Kurama. O jovem passa a ser criado como filho do Clã rival (Taira), devendo receber instrução para ser monge e recebeu o nome de Ushiwaka-maru, passando a estudar as escrituras budistas, porem, passou a receber ensinamentos de esgrima e técnicas incomuns da figura lendária de cabelos brancos Sojobo, Rei dos Tengu.

O jovem também se tornou um mestre da estratégia tática, algo que viria a ajudá-lo a derrotar os Taira e recuperar a honra do clã Minamoto. Inúmeros locais históricos relacionados com ele ainda são identificáveis ​​na montanha,incluindo um monumento a ele, que está situado ao lado do templo Tokobo, onde viveu por quase dez anos. E no santuário Minamoto-no-Yoshitsune Do, acredita-se que foi o local Ushiwaka-maru usado para a prática de disciplinas marciais.

Na década de 1920, Morihei Ueshiba O’Sensei, costumava retirar-se no Monte Kurama para se submeter a um treinamento austero; levando, uma vez por ano, vários de seus melhores alunos (pela data, nos baseando em outros artigos, Inoue Sensei devia acompanha-lo). A alimentação era arroz, missô, ervas e um tipo de picles. Subiam a montanha às cinco horas da manhã, para orar e praticar Misogi; seguido por praticas com bokuto, quinhentos movimentos, e pratica de Taisabaki. Das 10h ao meio-dia eram treinadas em técnicas corporais. Após as 15 horas até as 17 horas, os discípulos se revezavam como Uke de O’Sensei, que treinava todas as técnicas.

Durante o período da noite, O’Sensei revia com os discípulos o treinamento físico e espiritual do período do dia; a cada três noites tinha um período de sessão de treinamento a partir da meia noite. Ueshiba O’Sensei dizia que seu Budo, como também afirmava Masahisa Goi Sensei, é uma Inori, uma oração em forma de movimentos para saúde, harmonia e prosperidade do mundo e tudo o que nos rodeia. O segredo, segundo O’Sensei está em harmonizar a si mesmo com os movimentos do Universo, para alcançar a Unicidade.

Boa Reflexão.

Oss.

Baseado em escritos da administração do Monte Kurama, de artigos de James Deacon Sensei e sobre Masahisa Goi Sensei.


Kinone Michi

terça-feira, 9 de julho de 2013

Budo e Michi – Parte 2




























Está escrito no Dai Nippon Shin Ten, sobre o Michi:


“Antes de tudo, você deve compreender assim como praticar o principio e ação harmoniosa. Através do principio, a maneira correta de fazer as coisas é compreendida, A manifestação da lei natural em nossa vida diária resulta em harmonia e liberdade. Somente quando isso é conseguido é possível particar Michi, o modo de vida.”

Quando praticamos, devemos permitir que a técnicas sejam executadas de acordo com os movimentos naturais, principalmente de nossa estrutura física, devemos permitir que eles “floresçam". Se a mente está repleta de conceitos errados, de como copiar movimentos, vamos caminhar para tensões e bloqueios musculares, depois evolui-se para a rigidez e, consequentemente para as lesões. O mesmo acontece em relação a emoções e sentimentos negativos em relação a outrem, que também alimentam estas tensões, como ensinava Inoue Doshu.

Então, Tsumi pode ser eliminado pela ablução e purificação; Misogi (assim como o Harai), é basicamente a ação de lustração, fisicamente e mentalmente, o que resulta em uma condição de pureza e beleza : como estar limpando a poeira do espelho. Esta postura é vista como inseparável de uma condição restaurada de pureza, que restaura o processo natural, que é brilhante (Akashi). Esta postura, também, se aplica ao pensamento e intenção; muitos autores citam:

"O mau coração é um coração sujo, pois é malicioso; coração puro é aquele que não está sujo, é um coração brilhante que nada tem a esconder.”

Então, na Tradição, "coração puro e alegre" (Akaki kiyoki kokoro) é, portanto, a base de comunhão com o Kami, com o Musubi (processo criativo). Neste estado de pureza, um está ligado à ordem e harmonia da Grande Natureza, a "sacralidade do total do Universo”.

Na prática, podemos observar frequentemente, estes rituais para harmonização do ser humano com o Universo:

(a) a limpeza, preparações: desde varrer até lavagem do ambiente, banhos, etc;

(b) Invocação do Kami, através de belas palavras sonoras (Kototamas) e comunicação sincera;

(C) Oferendas e ofertas sinceras;

(d) Purificação ritual.

Segundo a Tradição, através do ensinamento, o Mestre faz com que o Discípulo Sincero entre em contato com esta energia. Cada um é orientado a praticar um grande respeito a si mesmo e ao outro, já que na verdade são um só. Da confiança mútua Discípulo-Mestre, Nage-Uke, nasce a compreensão.

Segundo Kawanabe Sensei, a geração de energia tem sua origem, também, na intenção; a energia Ki flui através dos centros energéticos, principalmente do Hara. Observemos que o Coração (Shin) modula a energia e o corpo do praticante permite a passagem desta energia através de um relaxamento dos músculos e tendões, alem do foco nos Tanden e no momento presente.

O movimento natural, se expressa, espontaneamente, em uma espiral que é observada diretamente no corpo dos praticantes. Os movimentos são um avanço progressivo do estático para dinâmico, Ki se expressa em espiral, fluindo pelas cadeias musculares, se espalhando por todo corpo (dos pés-tornozelos até os pulsos, da coluna até o pescoço), dissolvendo a tensão que impede e restringe o movimento espontâneo.

Kawanabe Sensei me falou dos ensinamentos transmitidos de Onisaburo Deguchi a Inoue Doshu e a Ueshiba O’Sensei, sendo que este último escreveu:

“O Budo é o caminho de Banyu Aigo: Amor Universal, Compaixão e um espírito de proteção por todas as coisas. Assim como o seu sangue flui por todo corpo e o unifica, assim você deve tornar-se uno com a Mente Divina do Criador. Michi consiste, na verdade, em formar em si mesmo essa consciência através da prática.”

Boa Reflexão.

Oss.

Baseado em textos de Inoue Doshu, Morihei Ueshiba O’Sensei, Mestre Noro, Kawanabe Shihan, Dai Nippon Shin Ten, sobre Xintoismo e Shingon Mikkyo

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Budo e Michi – Parte 1


























Ao visitar o Dojo de Kawanabe Shihan, conversamos muito sobre Budo e Michi. Embora o kanji para Do e Michi seja o mesmo, a compreensão do significado nos faz conhecer a Tradição Japonesa, que envolve certos aspectos culturais e religiosos. As práticas xintoístas, derivadas de tradições pré-históricas japonesas, se fundiram com práticas do Budismo, Confucionismo e Daoísmo, introduzidas no Japão a partir do século VI. Vamos encontrar registros no Kojiki, no Nihonshoki e no Kogo-shui. Muitos ensinamentos são oriundos do Shingon Mikkyo do Mestre Kukai, como me disse Shihan. Morihei Ueshiba O’Sensei sobre estes aspectos escreveu:


“O Shingon Mikkyo de Kukai, embora incomparavelmente mais complexo do que o Xinto, possui muitos elementos compatíveis com este último. Entre eles, está a concepção da unidade entre o Homem e a Natureza, e uma crença na eficácia mágica da palavra (Mantra no primeiro, Kototama no segundo).”

A Natureza seria uma manifestação de Musubi (Força Vivificante ou da Criação), principio fundamental do mundo que concede a vida, e é indiscutivelmente bom, segundo a crença geral. Não poderia haver mundo melhor do que este mundo. Quando este poder vivificante está obstruído, o movimento de criação poderia ser bloqueado e não seria bom para a manifestação da nossa realidade (como também ensinava Inoue Sensei), mas no final isto pode ser superado por práticas, cujas ações nos afastariam deste “desastre” (Ueshiba O’Sensei, assim como outros Mestres falam na ação de Naobi).

O homem é colocado como o elo entre a Terra e o Céu (Universo), desta união da Via Celestial com a Via da Terra feita através do Ser Humano, resultando numa energia Ki ascendente, que purifica e harmoniza.

Segundo este olhar, encontramos Tsumi, que pelo prisma ocidental seria designado como “pecado”; no Oriente é visto como uma “postura ou ação incorreta”, que levaria o ser humano a ficar distante do que se conceitua como Felicidade. Tsumi seria uma “barreira”, que pode ser devido ao Kegare ou “sujeira”, assim enfraquecendo nossa vontade, obscurecendo a mente, dificultando a compreensão e nos tornando escravos de nós mesmos, como sinalizava Inoue Doshu. Na tradição a expressão mais predominante deste sentido de obstrução é o termo "contaminação". "Pureza", por sua vez, caracteriza o estado de criatividade.

Já no que diz respeito à ação "endireitamento" feita pelo homem para vencer esses fatores que “obstruem” ou “poluem” o poder vivificante de musubi e kami; existe uma variedade de meios para conseguir isso, mas é, principalmente, por meio de ações rituais que variam como práticas ascéticas (Misogi) e meditativas, entre outras tantas. Todas essas atividades variadas são concebidas em termos de libertar as pessoas e as coisas de "poluição" a fim de restabelecer a "pureza", podemos nos lembrar do ensinamento de Inoue Doshu, em que fala da oração para afastar a impureza do interior do ser humano, o que pode ser feito conjuntamente com a prática sincera.

(Continua)

Baseado em textos de Inoue Doshu, Morihei Ueshiba O’Sensei, Mestre Noro, Kawanabe Shihan, sobre Xintoismo e Shingon Mikkyo

sábado, 6 de julho de 2013

O Caminho e o Mestre



















A atuação do Mestre é muitas vezes associada a ser um professor, mas um texto de Osho nos esclarece isto:

“O primeiro ponto a ser entendido é: você não pode estudar o Zen. É impossível! Você pode estar nele, mas não estudá-lo – porque o Zen ou Dhyan não é um objeto de estudo, é um modo de vida; depende de como você vive. Você não pode obtê-lo pelas escrituras, você não pode obtê-lo dos outros. Ninguém pode ensiná-lo a você, ele nãoexiste para ser ensinado. Ele não é um conhecimento - que possa ser transferido de uma mão para outra. Ele é um modo de vida. Você pode se permitir caminhar nele; fluir, estar vulnerável, aberto – e é assim que a pessoa deve estar em relação ao Mestre. (...)

Viver com o Mestre é o suficiente: se você estiver silencioso, aberto, sem lutar – simplesmente em sua presença – haverá momentos em que poderá aprender o Zen. (...)

Assim, o primeiro ponto a ser entendido é: ninguém pode ensinar o que é Zen, o que é Dhyan. Você pode aprendê-lo, mas ninguém pode ensiná-lo. Eu tenho dito continuamente que não existem Mestres, existem apenas discípulos porque um Mestre não pode fazer nada positivamente diretamente. Ele não pode lhe dar, não pode ensinar-lhe diretamente o Zen. (...)

Diretamente, nada pode ser feito. O essencial é tão sutil, tão delicado, que se você o transferir, na próxima transferência ele morrerá.(...)

O sol não pode dar vida à flor – não! Mas a flor pode abrir-se por meio da ação dele e ser enriquecida pela sua própria abertura. Se a flor permanecer fechada, o sol não poderá fazer nada. O sol não poderá bater na porta, não poderá distribuir sua vitalidade e vida – não! O sol passará despercebido. Um Buda vem – eu estou aqui, você pode se abrir. Mas se você permanecer fechado, nada poderá ser feito. Assim, isso compete a você. Depende totalmente de você aprender ou não – isso não é um estudo.”

Osho utiliza uma expressão que se assemelha aos ensinamentos de Ueshiba O’Sensei, quando este nos falava sobre a Via do Coração: “Esse aprendizado é do coração.”

O texto continua, sendo o sentido da explicação muito parecida como Inoue Doshu explicou a Stanley Pranin, em uma entrevista, como era a transmissão dos ensinamentos, fazendo a distinção entre estudar e aprender; usando outras palavras:

“Se o primeiro passo estiver certo, então metade da jornada estará vencida, quase terminada. Se o primeiro passo estiver certo, tudo o que vier se seguirá automáticamente, você chegará à meta. Assim, não vá ao Mestre para estudar, vá para aprender. Se você for para estudar, o Mestre lhe ensinará, mas o ponto mais significante não poderá ser transmitido – vá para aprender.

Qual é a diferença entre as duas atitudes? Muitas são as diferenças: quando você vai para estudar, quer mais informações; quando vai para aprender, que mais ser – não informações. Quando você aprende, seu ser cresce. Quando você estuda, sua memória é que cresce. Quando você estuda, sabe cada vez mais e mais; quando aprende torna-se cada vez mais – e essas coisas são totalmente diferentes.”

Boa Reflexão.

Oss.

Baseado em texto de Osho no livro “Nem Água, Nem Lua”; em artigos sobre Ueshiba O-Sensei e entrevistas de Inoue Doshu.

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