Esta Arte Marcial tem por característica resgatar toda Tradição Marcial dos primórdios da civilização japonesa, quando o homem vivia perfeitamente integrado consigo mesmo e com o Universo. Neste conceito, através do treinamento captamos a energia do Grande Universo e depois passamos a utilizá-la, tendo o centro do corpo como área de difusão. Através da consciência do fluxo de energia tudo é possível e podemos esquecer o uso da força física. Com a meditação, esvaziamos a mente e com a prática do Shin’ei Taido também.

Com a mente e o interior pacificados, não há medo, nem raiva, nem angústia nem pânico; saímos das emoções e dos pensamentos. Se considerarmos isto como objetos do aprisionamento humano, entramos na dimensão da Consciencia, aonde nos conduz o Shin’ei Taido. Tanto homens, mulheres, pessoas de todas as idades podem se integrar nesta prática saudável.

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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Espírito e Mestre do Coração

Sempre lemos nos textos, seja do Budo, do Aikido, do Kenjutsu, do Shin’ei Taido e tantas outras Artes Marciais, a importância do Coração, que é ele que nos conduz a evolução e ao Despertar; comecei a ler traduções de textos japoneses e chineses antigos, que falassem deste aspecto.

O Kokorotsutsumi (ou invólucro do coração), também conhecido como Mestre ou Senhor do Coração, é um órgão especial dos órgãos internos na medicina tradicional chinesa e japonesa. Ficou muito tempo desconhecido pelos ocidentais, que não percebiam sua existência como um órgão, pelos orientais.

Este “órgão” é responsável pelas trocas das energias Inn e Yang, com atuação no psiquismo tonificando o Inn, a circulação e o Coração; o Coração atuará, então, sobre a afetividade, a alegria de viver, a vitalidade e o espírito de iniciativa.

Na região do pericardo, na área denominada como Trann Tchong, teremos uma confluência para as energias respiratória e circulatória; é aí aonde o sangue (consequente à energia), parte para o Coração e este o lança para o resto do corpo. Segundo os autores orientais, tem uma atuação sobre o aspecto mental e sobre o “espírito” do Coração (Shin ou Sheng); e que, os 7 sentimentos seriam considerados os principais fatores da doença interna.

Mestre Da Cheng escreveu: “É do Mestre do Coração que é emanada a Claridade do Consciente”; e ainda explica que este “órgão” é responsável pelos processos de recepção dos fenômenos provindos do exterior e pela produção da atividade mental. Quando o Ki do Mestre do Coração e, consequentemente, do Coração são abundantes, o pensamento é vivo e o espírito é claro.

Muitos autores confirmam que o Coração encerra o Shin ou Sopro vital, que compreende o espírito, a atividade mental e a consciência; e estas estando bem, fortalecem essencialmente o Coração.

Penso que entender estes conceitos, nos fazem melhor compreender os textos de Morihei Ueshiba O’Sensei, que possuem muitas orientações e ensinamentos para nos conduzir ao despertar; ele nos fala sobre os sentimentos como podem nos prejudicar e que podemos no focar no Coração:

"Assim, se você se preocupar com o que é " bom "e" ruim "em seus companheiros, você cria uma abertura em seu coração, pela qual a maldade pode entrar. Testando, concorrendo com, e criticando os outros, você se enfraquece e derrota a si mesmo. (...)

Porém, seu coração está cheio de sementes férteis, esperando para germinar. (...)

Tocado pelo Coração Sincero, exercite e aprofunde o conhecimento dele, convencido da unidade deste mundo com o mundo que virá posteriormente.

Os dois fatores, físico e espiritual, precisam nutrir-se e fortalecer um ao outro, trabalhando ambos em perfeita Harmonia. (...)

Deus nos deu uma expressão física que prestasse ao aprimoramento do espírito, neste mundo e no Universo. Para tanto cumpre-nos alimentar o corpo, porém este, por sua parte, deverá seguir a consciência do espírito em total obediência. O corpo há de ser treinado como o guardião da alma e da luz de Deus na terra. Precisamos polir os veículos por meio dos quais experimentamos a Sabedoria do Universo. Ouvindo e vendo claramente, cheirando, degustando e tocando com sensibilidade, abrindo Coração, Mente e Espírito, é que experimentaremos e perceberemos a plena verdade de Deus. Assim é que precisamos cultivar as virtudes do Espírito Universal nesta terra onde vivemos. Temos que reunir, como uma só coisa, a Essência Divina, o Universo e a expressão de nossa vida. (...)

Se olhardes com os olhos do Coração, ele será o mestre possuidor da verdade cientifica e espiritual que vos conduzirá à Iluminação. Ele encarna todas as Escrituras Sagradas. As leis da Natureza surgiram por intermédio do Amor, da Harmonia absoluta encontrada no perene processo da Criação. É absolutamente necessário que os seguidores do Aikido pratiquem essas coisas bem no íntimo do Coração.”

Boa reflexão.

Oss.

Baseados em Textos da Medicina Tradicional Chinesa, da Medicina Tradicional Japonesa, no Nei Ching, entrevistas e ensinamentos de Morihei Ueshiba O’Sensei.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Cada Ação é Única

Estes dias lí um artigo, de Mitsugi Saotome Shihan , que me fez refletir, que cada ação é uma possibilidade única em nossas vidas; mesmo que você a repita, está ação nunca será identica: Ichi Go Ichi E. Este termo usado tanto na Cerimônia do Chá, como no Budo, é usado para advertir os alunos que se tornam descuidados ou freqüentemente param técnicas pelo meio e iniciam de novo, em vez de seguir em frente com a técnica, apesar do erro. Geralmente um Mestre alerta, que se fosse uma luta de vida ou morte, não haveria nenhuma chance de "tentar novamente." Mesmo que, no Dojo, as técnicas possam ser repetidas muitas vezes, devemos ver cada uma delas como um evento singular, único e decisivo; conforme Ueshiba O’Sensei ensinava a seus discípulos.

Embora esta frase seja associada à Sen no Rikyu Sensei, Mestre da Cerimônia do Chá; porém sua frase original foi ichigo ni ichido" (uma vez em toda existência, vida –"ichigo ni ichido no e no yō ni"). No entanto, ichigo ichie foi um conceito desenvolvido, mais tarde por Ii Naosuke (1815 -1860), administrador-chefe do Xogunato Tokugawa e,também, um mestre da Cerimônia do Chá. Esta frase é freqüentemente traduzido como “apenas desta vez", "nunca mais", ou "uma chance em uma vida."

A frase, é composta, pelo kanji ichi (numero um), duas vezes, acrescido do kanji Go (que representa as mudanças da lua, que marca a passagem do tempo) e pelo kanji E (aqui utilizando a sua forma antiga, que representa a possibilidade , reunir, reunião, encontro, ser possível realizar algo): um só tempo, uma só possibilidade.

Segundo Saotome Shihan, “a vida é vivida momento por momento e a medida dela é o modo pelo qual o espírito floresce em cada um desses momentos”; que cada instante seria um instante de celebração de um momento atemporal e eterno, principalmente se o coração experimenta a paz. Shihan nos fala que a mente precisa estar sempre vazia, para poder estar receptiva às vibraçõews de cada momento, pois o tempo não retorna jamais: é como saborear o chá, cada gole é único, não devemos comparar pois ficaríamos impedidos de saborear. Shihan nos alertas que as pré-concepções, são artifícios da mente, que nos impedem de em contato com as vibrações do momento presente.

Devemos lembrar que Mitsugi Saotome, foi Uchideshi de Morihei Ueshiba desde jovem, ficando junto ao Fundador, dando toda assistência, dentro e fora do Dojo, até o dia do falecimento do Grande Mestre. Nos últimos anos, quando o jovem Saotome quando via Ueshiba O’Sensei nos treinos, sabia que poderia ser a última vez, que poderia ser a última oportunidade de receber seus ensinamentos nesta existência, neste plano material, e expressava neste frase:” O agora é agora! O amanhã é o talvez.”

Ueshiba O’Sensei ensinava, que este é o significado de Ikkyo, que a cada vez que realizamos, ele é único, que não existe uma segunda oportunidade, que não é possível realizar algo que é único de novo, que toda a nossa vida está naquele instante único, no agora. O’Sensei ensinava que isto só pode ser realizado com a mente de principiante, com a mente vazia; que a pré-concepção, a conceituação e as normas, nos afastam do Caminho, como ele resume neste ensinamento:

"Fazer cessar os pensamentos limitantes e voltar ao verdadeiro vazio. Fique no meio do Grande Vazio. Este é o segredo do Caminho do Guerreiro ".

Boa Reflexão.

Oss.

Baseado no livro de Mitsugi Saotome Shihan “ Aikido e a Harmonia da Natureza” e artigos de Stevens Sensei.








 Ichi Go Ichi E (Kanji Antigo)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Byōki e Saúde

A interação de ki com todas as coisas e seres vivos, é algo que sempre fascinou o ser humano, desde a época dos samurais, fascínio que permanece até hoje, e todos os conceitos de Saude, foi muito estudado por grandes mestres das Artes Marciais, como Tesshu Yamaoka Sensei, Tempu Nakamura Sensei e Koichi Tohei Sensei.

Ki é extremamente vital, considerado a "essência da vida" ou "energia vital" que mantém e alimenta nosso corpo físico, mental e espíritual. Muitas vezes é caracterizado como o movimento de energia, que se regenera rapidamente, mudando a cada dia. Alguns autores alegam que consiste de campos magnéticos, elétricos; com um espectro sonoro e vibracional que vai desde o infra-som e infravermelhos, que fluem através de nossas células, tecidos, músculos e órgãos internos.

Ki não se move aleatoriamente dentro de nós, mas através dos meridianos ou canais de energia em nosso corpo, que formam uma rede de caminhos interligados que conecta órgãos, pele, visceras, músculos e ossos; como tudo é uma manifestação de Ki, temos a manutenção da unidade, do campo unificado. Está unidade ressona com o ambiente a nossa volta, com tudo o que está a nossa volta.

Quando o fluxo de Ki não está obstruído, temos boa saúde, mas quando Ki é bloqueado, a qualquer momento, resulta que Ki é incapaz de alcançar a determinada região do corpo, promovendo disfunções ou até mesmo doenças.

Tohei Sensei, que devido a um quadro de pleurisia acentuado, que o obrigava a fazer repouso diário, sem poder exercer atividades físicas, o leva a procurar a Escola fundada por Yamaoka Sensei: O Ichikukai Dojo. Neste local, os discípulos de Tesshu Yamaoka Sensei, praticam várias técnicas de Misogi, e afirmavam que todo indivíduo tem pelo menos um “poder”, que após estas práticas, adquiriria mais nove (Ichikukai significa 1-9).

Ao se apresentar neste Dojo, após muita insistência, o jovem Tohei é aceito por Tesso Hino Sensei, com a condição de apenas praticar a meditação Zazen todos os dias; apenas mais tarde faria as outras práticas, quando estivesse mais forte. Toda vez que o jovem insistia em fazer as outras práticas e praticar o Kiai, retornavam as dores e piorava o quadro.

Mestre Hino passou a acompanhar pessoalmente o treinamento do jovem, ficavam horas na prática do Zazen; a partir deste instante, a sua doença e dores começaram a melhorar, atribui a melhora a sua compreensão da interação de Kokoro (Coração-Mente-Espirito) com o corpo, quando esta unidade é interrompida, temos a disfunção de Ki, com a instalação de Byōki.

O jovem discípulo percebeu que uma mente sobrecarregada de emoções e julgamentos (raiva, medo, intolerância, preconceito, etc.) leva a uma disfunção de Ki, levando o Byōki a impregnar a esta mente e estendendo esta atuação para o físico. Em japonês, qualquer disfunção do corpo é denominada Yamai ou Byō; mas quando temos uma disfunção que compromete o Ki do indivíduo, temos a condição de Byōki.

Sensei Tohei explica, em sua entrevista a Stanley Pranin Sensei, que se a mente esta contaminada (doente), logo teremos um corpo doente, se a mente está saudável e livre da contaminação (pensamentos negativos, desejos e emoções), o corpo está saudável. Posteriomente, Sense criou grupos de estudos para resgatar as técnicas tradicionais.

Estes estudos mostrar a importância do Chin Tanden ou Seika Tanden , cujo significado literal nos indica ser esta a região do abdômen aonde acontecem as precipitações elétricas de Ki muito importante para se apoiar o Plexo Solar (ou Inochi Mon).

O Kokyu Ho, seria, como sugerem alguns autores, através do trabalho do diafragma, não só responsável por movimentação de vísceras e órgãos abdominais, mas também considerado um tipo de “massagem respiratória no mediastino, com uma melhora da função do retorno venoso, da circulação arterial e linfática, além de melhorar o desempenho da atividade de pleura e pericárdio. O Pericardio é considerado como um “órgão” importante ma medicina chinesa e oriental, é o chamado Fogo Príncipe.

Esta prática do Kokyu pode ser feita em posição sentada (pernas cruzadas em "meio lótus", em Seiza ou sentado em uma cadeira com os pés apoiados no chão); alguns praticam em pé. Sente-se confortavelmente e, suavemente, feche os olhos ou os deixe entreabertos. Agora, lentamente, relaxe suavemente todos os seus músculos - lenta e suavemente – membros, mandíbula, ombros , costas , tórax , abdômen , quadris, mãos e pés; boca ligeiramente fechada - mandíbula relaxada - e a ponta da língua contra o palato.

Dirija sua atenção sobre o Hara, focando o ritmo natural de sua respiração. Seja a observação da respiração, sem interferir no processo de respiração, apenas esteja ciente de que você está respirando sem esforço.

Cada vez mais consciente no processo de respiração, sem tensão, inspire lentamente através do nariz (inflando levemente o abdômen inferior) até que seus pulmões estejam quase (mas não completamente) repletos; isto sem esforço ou tensão.

A sua respiração passa a ser como um raio de luz que flui em seu Seika Tanden. Observe as pausas, faça uma pausa momentânea, para estar ciente da respiração e Hara, então, comece devagar expirando no mesmo ritmo lento, deixando arrastar a respiração pela boca; continue até que seus pulmões estejam quase (mas não completamente) vazios.

Repita o processo, devagar, sendo apenas observador do que acontece, permitindo este ciclo de respiração acontecer durante o tempo que você se sinta confortável com ele, sem esforço.

Boa Prática.

Oss.

Baseado em entrevistas de Koichi Tohei Sensei, em artigos sobre Zazen e Misogi.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Impermanência, Sakura e o Poema 17 do Imperador Meiji

Vejo, cada vez mais, como é importante o estudo dos poemas do Imperador Meiji, no estudo do Budo, como bem me apontou Kawanabe Shihan.

Muitos escritores citam que a figura de imagem que ilustra a comparação que o Samurai gostava de fazer sobre seu dever, sua maneira de ser, falava sobre a Impermanência e estava num poema escrito no Hahakure:

"Como a flor de cerejeira, pronto para morrer no primeiro sopro da brisa da manhã.”

O conceito de Budo (Caminho do Guerreiro), assumiu uma nova dimensão, após o Periodo Kamakura (1192 - 1333), este termo herdado da China, cuja cultura Tang influenciava muito o Japão, designava como administrar os assuntos civis e militar. Esta noção foi enriquecida com uma dimensão ética e, portanto, o significado do Budo foi acrescido de obediência irrestrita ao código e a aquisição de virtudes em vigor nas classes Bushi e Samurai, tendo influência de várias correntes religiosas. Na verdade, o Código do Samurai baseou-se em vários princípios éticos religiosos propensos a ajudá-lo a fortalecer a sua alma. Com o ideal de serenidade do Samurai, a confiança no destino, a aceitação tranquila do evento inevitável; transcendendo, sobretudo, a morte e ao medo: o chamado transcender o ego.

Inoue Sensei, segundo Kawanabe Shihan, ensinava o chamado Budo da “Flor de Cerejeira caindo flutuando no Vento” (Sakura ga kaze ni fuyū rakka): conceituava que o Michi (Do) é a dádiva e vontade do Universo, que está sendo manifesta a todo instante; basta apenas nos esvaziarmos para que o Fluxo aconteça. Ser observação, ser ação; é a ação que dá origem à Virtude, Verdade, Compaixão, Beleza, etc...




Observar “As Flores de Cerejeira caindo que flutuam ao Vento”, este ensinamento nos mostra que elas caem e flutuam sem pensar; e é sem pensar que nos tornamos velozes e leves. Esta é a mentalidade quando se atinge a “Maestria no Movimento ou Ação”. Estas flores não vão contra sua própria natureza, tão pouco contra as leis da Natureza, a gravidade e o vento; isto as faz mais velozes.

Ser a respiração presente, ser o movimento presente, ser o vento presente, ser o instante presente. Nem mais, nem menos; não existe forte nem fraco, só existe o Fluxo da Realidade.

Por isso, a “respiração ideal ou refinada” (Iki) é tão importante no desenvolvimento da técnica: inalar e exalar, o ritmo natural se faz conjuntamente com o Hara; este último origem e centro onde tudo se produz. Este é o fundamento do Hachiriki de Kawanabe Shihan.

Um cronista da antiguidade faz uma analogia entre a que das flores e ao fluxo de um rio: estas são as flores que caem e,dançando, são espalhadas ao vento, indo em direção a um rio, mas não caem com a intenção de pegar o fluxo, simplesmente se deixam levar. Ao mesmo tempo, o rio não espera as flores para seguir o seu fluxo; ambos eventos simplesmente acontecem em harmonia. As flores são apenas espalhadas na natureza, o rio simplesmente apenas flui inocentemente, aí está a beleza e a harmonia.

O poema 17 do Imperador Meiji nos remete a este conceito da Impermanência, nos remetendo a estes ensinamentos da Harmonização:

"Ike no omo - Na superfície da lagoa
Ni nozomeru hana - podem ser vistas as flores
No ureshiki - de uma maneira agradável
Wa chirite mo mizu - sobre a água caem e
Ni ukabu narikeri - flutuam espalhadas"

(Suizyourraka ou Mizu no ue no ochibana) (Folhas caindo sobre a água)






Boa Reflexão.

Oss.


Baseado em artigos sobre o Inoue Sensei, Kawanabe Shihan, textos do Hagakure e os estudos, em japonês, dos Poemas do Imperador Meiji.

domingo, 1 de dezembro de 2013

O Circulo Eterno (Ki e Movimento)

O criador da Arte Marcial, Korindo Aikido, Minoru Hirai Hanshi, explicou, em uma entrevista, seu conceito básico de “En Wa Ichi Gen”, que expressa com a figura do “Circulo que Gira Eternamente”.

Mestre Minoru começou seus estudos de Artes Marciais, com seu avô adotivo, aos 11 anos de idade, em 1914, o estilo de Kenjutsu Togun-Ryu Heiho, e em 1918, o estilo Okumura Nito-Ryu. Além dos jujutsu Takenouchi-Ryu e Kito-Ryu, tambem estudou o sojutsu (yari, lança) Saburi-Ryu. Para Stanley Pranin Sensei, relatou que em seu aprendizado, em sua família, nestas Artes aprendeu a dar vazão ao Fluxo, principalmente quando lhe ensinam a Arte milenar do Yawara (não confundir com o artefato marcial com o mesmo nome, utilizado em outras Artes Marciais ou com o estilo marcial Yawara Jitsu). Mais adiante explicarei a etimologia da palavra e do termo a que Minoru Sensei se refere como uma designação, também, para jujutsu e, entre várias técnicas, incluía a prática doo Ken e Bo.

Para Minoru Hanshi o mais importante, que se começa aprender através da prática do Taisabaki, advinda do Yawara-Ryu, com a prática do movimento e da respiração, não havendo forma (kata) pré-concebida; embora parecendo paradoxal, ele afirma que não se pode associar movimento e respiração a uma técnica específica. Segundo este conceito, a cada situação ou evento, teremos uma ação, uma movimentação espontânea repleta de Ki; isto acontece quando corpo e respiração atuam por si mesmos, com o aparecimento do movimento circular espontâneo e natural, que flui por si só.

Este Taisabaki de Yawara que deveria ser o primeiro ensinamento a ser praticado e aprendido no Dojo, a “Fonte do Principio do Círculo” ou “Circulo como Fonte única” (En-wa ichigen), do “circulo que gira eternamente”, como ele explicava; quando tomamos consciência, através desta prática, que a vida e os outros eventos, acontecem por si só, assim compreendemos a nos deixarmos ser levados pelo “fluxo do movimento e da respiração, que acontecem por si mesmas”.

Naquele instante da prática, alunos e instrutores, podem experimentar o preenchimento pelo Ki Impermanente (ou da Impermanência), quando todos podem ficar cada vez mais relaxados, premissa para o aparecimento do movimento circular espontâneo.

O termo “En-wa ichigen”, tem uma bela conceituação se observarmos os seus kanjis, o que nos faz compreender o que Mestre Minoru explicava:

O primeiro Kanji, En significa círculo. Já o Kanji Wa, tem uma significação mais ampla:harmonia, paz, representando, também, a forma curta de Yawa (rageru), Yawa(ragu), nago(mu)- suave, calmo nago(yaka) gentil, agradavel,suave. Ichigen significa Fonte Única. Wa também faz alusão ao Japão e a Paz.

Interessante que o Kanji Wa tem um outro kanji como representante para Yawara que é Jū ou Nyū, que significa gentil. Quando associamos ambos kanjis, temos a palavra Nyūwa (ou Yawara), que significa mansidão e gentileza, caracterizando bem os ensinamentos de Minoru Hanshi da não-contração, dos movimentos e respirações naturais.

Mestre Monoru, ensinava que através desta prática, o ser humano permite que o fluxo de Ki e da Criação, se faça incessantemente através dele próprio, se tornando cada vez mais gentil, alegre e repleto de Compaixão; que este é o principio da Unidade e da Paz, aonde não existem conflitos, quando atingimos a Consciência.

Nos é solicitado que pratiquemos com sinceridade, alertando que não tendo nada a ver com privilegiar a forma física, pois em seu conceito, visar apenas adquirir um excelente condicionamento físico e técnico, sem praticar o aspecto espiritual do Budo, não está na prática do Caminho ou Michi.

Termino com a frase de Minoru Hanshi:

“Eu acredito que o segredo é colocar o seu coração e a sua alma na prática das Artes Marciais.”

Boa reflexão.

Oss.


Baseado em entrevistas de Minoru Hirai Sensei.

                        “En-wa ichigen”


     
             "Nyūwa (ou Yawara)"

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Hara, Mente e Mar de Energia – Parte 2

Para tal conexão, devemos analisar, na cultura japonesa, expressões como "pensar com Hara", que é a sede da intuição movimentos e reflexo, que seria a sede de nosso cérebro. Outra expressão é “estar no Hara” que se refere as seguintes características: atenção no momento presente; sem muito ego ou muito pouco; propósito de transcende a personalidade; senso de conexão com o céu-terra; com capacidade de responder a qualquer circunstância da vida.

No Japão, esta forma de consciência é definida como Haragei, a relação direta entre o homens, de hara com hara , de alma para alma, que pode acontecer entre duas pessoas sem a necessidade de palavras. Encontramos outras expressões como:

Hara kuroi hito, uma pessoa sorrateira, tem um abdômen preto;

Hara gitanai hito - álguém desonesto, que tem o Hara sujo, que não tem os meios próprios no Hara para ser honesto;

Hara okii hito é homem generoso é aquele que " tem uma grande Hara ;

Hara dekiteru hito é o homem maduro , forte, respeitada e respeitável;

Hara wo watte Hanasu é conversar de coração aberto, com o Hara aberto;

Hara ga tatsu é que se está com raiva, o Ki do Hara está invertido para cima .

Na verdade, quando se fala de Hara , como vimos, falamos de mente, consciência, Tanden, KI e Kokyu, pois existe uma ampla conceituação sobre o Hara, e seria como um centro imutável em torno do qual tudo está organizado.

Como nos ensina Kawanabe Sensei sobre a respiração e o Ki, no Hachikiri, que desenvolveu após seus estudos com Inoue Sensei e Okuyama Sensei:

"Da mesma forma, quando esta respiração, ao mesmo tempo leve, profunda e forte, quando é bem treinado, só é necessário fazer vários ritmos da respiração, sendo adaptável para estar pronto para qualquer mudança de movimento. Okuyama Sensei afirma que "Ki" é a respiração. Eu concordo, mas na minha opinião'' Ki'' tem dois lados: os aspectos físicos e mentais. O Ki mental, se manifesta e trabalha fisicamente na forma de respiração. (...)

Pode-se, desenvolver a técnica violenta de um furacão, bem como a técnica de calmaria, com a sua respiração do Hara. A Inspiração e a expiração podem ser feitas perfeitamentes, com vários ritmos e poderes. ”

Observamos o mesmo ensinamento no poema 17 do Imperador Meiji, que nos fala como a onda pode ser tempestuosa ou tranquila:

Sendo Tempestuoso (Areruka to)

Acalma-se ao olhar (Mireba nagiyuku)

Para o Mar Original (Unabara no)

A onda , o ser humano (Nami koso hito no)

E o mundo se assemelham (Yo ni nitarikere).

Interesante observar que Unabara é o Oceano de onde tudo provem, o Oceano da Criação. Este oceano que Ueshiba O’Sensei nos fala de ser a Fonte da Criação, de todas as coisas, que devemos nos fundir a esta fonte. Assim, se através da meditação ou ser observação, nos ligamos e permanecemos na “profundidade do Mar Original”, nossa mente acalma, não ficamos expostos ao vai e vem das ondas, que neste caso são as emoções.

Boa reflexão.

Oss.



Baseado em textos de Kawanabe Shihan, Inoue Doshu, Morihei Ueshiba O’Sensei, Poemas do Imperador Meiji


Para Ler a Parte 1 - Clique Aqui

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Hara, Mente e Mar de Energia – Parte 1

Ontem li um artigo muito interessante, no qual o autor nos fala, que ser observação para que a mente abandone o vício da forma. Conforme transcorria o tema, o autor me fez lembrar os ensinamentos de Ueshiba O’Sensei, de Inoue Sensei e Kawanabe Sensei, quando todos nos mostram o caminho de transcender a forma, pois como afirmam: “todas as formas se encontram em nosso interior.”

O Caminho do Budo é muito interessante, já que num primeiro instante, é através do estudo da forma que temos os primeiros estágios do aprendizado, para posteriormente podermos abandoná-los, para transcendê-los, como no poema do Imperador Meiji, Utsusemi, deixar a casca vazia, transcendendo a forma. Esta é base do Sutra do Coração: “A forma é o vazio, o vazio é a forma”.

Tal aspecto vem através da meditação (seja passiva ou ativa), do trabalho com a respiração e a atuação do Hara (cerca de 2-3 dedos da prega umbilical). Culturalmente, isto parece um paradoxo no Ocidente, mas, na cultura japonesa, esta é a região do “Kikai Tanden” (Mar de Energia), que se baseia na atenção neste ponto e na expiração, simultâneamente.

É este mar de energia do Hara que serve de base para o Tanden médio, na área do Tanzhong, próximo a área do coração, possibilitando tranformar o Ki em, no que é descrito nos textos sino-japoneses, em “respiração espiritual” (Shen, Kami), que anima a via mental e aprimora a consciência. Quando integramos o Tanden superior, que geralmente se localiza na área de Yingtang (entre as sobrancelhas), esta respiração nos conduz ao estado de Wuji ou estado de vazio fértil, conforme descrito nos textos taoistas.

Este “movimento” de Ki é o princípio fundamental e único, que dá ao Universo, a todas as coisas e aos seres a forma, enquanto se transforma sem cessar. Na cosmologia chinesa, o Ki é pré-existente ao surgimento de yin e yang; os dois aspectos da respiração que, através da combinação de ambos, a formação das “dez mil coisas”, isto é, seres e objetos do universo.

Enfim, seria através desta integração com o terceiro Tanden, que o praticante atinge a um estado de unidade com o Cosmos, isto é, a unidade para agir de acordo as leis intrínsecas do equilíbrio do Universo; segundo o Taoísmo chamado o Caminho ou Tao.(estado original do Cosmos).

Textos marciais dizem que a Onda (ou Nami) seria a energia que circula de fato em suas próprias variações, então, estas variações são as designadas de “ondas”. Para obter uma imagem mais clara, pensemos na eletricidade, o que seria a energia e esta tem um comprimento de onda que é facilmente medido. Em qualquer movimento,assim como na onda, existem as fases de alta e as fases de baixa. Novamente para ter ideias claras, é melhor tomar como modelo uma curva sinusoidal,que é a própria imagem do movimento que lembra ondas do mar ou do lago (porem, nós devemos ter em mente que isto é a superfície, uma pequena parte do mar, que em sua imensa profundidade e extensão, tudo é tranqüilidade). No Aikido, Shin’ei Taido, Kitaido, Shintaido, Hachiriki, Karatê e outras Artes Marciais, as variações de respiração e energia são comuns.

Em uma técnica, há momentos em que estão encadeados com diferentes ritmos; se ikkajo ou ikkyo realizado do início ao fim, pode ser com a mesma intensidade, temos o cotovelo dobrado. Porem, se o praticante vai aumentar a amplitude do braço, existe uma alteração na amplitude do movimento. Muitos vêem na prática do Irimi-tenkan ou do Oi Tsuki, a mesma coisa, mas tudo de estar conectado com o ritmo da respiração e Hara.

(Continua)


Para Ler a Parte 2 - Clique Aqui

Baseado em textos de Kawanabe Shihan, Inoue Doshu, Morihei Ueshiba O’Sensei, Poemas do Imperador Meiji

sábado, 16 de novembro de 2013

A Prática Aiki (anos 30-40)

Stanley Pranin fez diversas entrevistas, com vários alunos de Ueshiba O’Sensei, do periodo das decadas de 30 a 40. Com estes depoimentos, ele pode nos concede um visão aproximada da prática, pelo olhar dos que ele chamou dos "Pioneiros do Aikido”. Devemos lembrar, que nesta época é que Mestre Deguchi sugeriu nome Aikibudo, para a Arte; nos anos 50, denomina-se Aikido.

Segundo relato de Zenzaburo Akazawa Sensei, muitas vezes, um aluno adiantado, estudava extenuantemente duas técnicas por duas semanas, e era enviado a disseminar a técnica em outro Dojo do Budo Senyokai ; como aconteceu com Fujisawa Sensei, as técnicas ou apenas uma técnica, que O’Sensei queria aprimorar, fosse num dia ou num periodo. No caso de ser suwari-waza, praticariam até esfolar a pele ou o joelho, era muito intenso.

O’Sensei praticava diretamente o aluno, e demonstrava, depois o Deshi aplicava a técnica nele. Dizia-se que era como aplicar a técnica numa arvore imensa; o Mestre não fugia nem se opunha a técnica, mas parecia que ele drenava para si a energia de Uke. Não adiantava Uke fazer cada vez mais força, nada acontecia. No Kokyu-ho, seus ombros caiam e ficava imóvel como uma montanha; Uke podia tentar elevar as mãos, empurrar o Mestre com a cabeça e nada acontecia.

Nos anos 40, maioria das técnicas não eram realizadas em shikko. Num treino, iniciavam com Tai-no-henko, o Funakogi-Undo (exercício do remador ou Torifune) para aquecimento; depois as técnicas do dia. No final, Shūmatsu undō (ou Shūmatsu Dōsa) e Kokyu-ho. A prática com shikko é mais tardia.

Naquela época, o termo “Kyo” não era usado, atual Ikkyo era “Ikkajo” , “Nikyo era “Nikajo” e assim sucessivamente. A termilogia “Kyo”, foi no periodo em Kisshomaru Sensei publicou o livro “Aikido”, em 1957 (conforme artigos de Stanley Pranin Sensei, Akazawa Sensei, Inoue Sensei, Kunigoshi Sensei, e Cristopher Li Sensei). Os Deshii relatavam que seu movimento possuia velocidade esmagadora; que mesmo possuindo um aremesso possante, passava uma sensação de proteção e segurança para Uke. Nas chaves e imobilizações, Uke sentia um grande peso sobre o corpo, ficava totalmente imóvel, fosse com as mãos ou um único dedo, atingindo uma única vértebra ou um único ponto.

Ocasionalmente, o que era raro, havia treino de espada, e experimentavam a extrema rapidez de O’Sensei ; iniciar levantar o bokuto, era sentir a ponta do Bokuto do Fundador na garganta. Perceber que o Mestre poderia atacar opescoço, em um átimo de segundo, O’Sensei realizava um Irimi – tenkan, se deslocando tão rápidamente, que no instante seguinte estava com a espada atrás da cabeça de Uke. (O termo usado na entrevista a Christopher Li Sensei, é Bokuto, lembrando que o termo Bokken é uma terminologia mais recente).

O’Sensei treinava com Bokuto e Tetsubo (bastão maciço, de carvalho, com metal nas extremidades, muito usado no periodo feudal), aconselhando que era importante finalizar com firmeza, com movimentação rápida e segura; conectando Hara com Hara, com o movimento de corte até o Hara de Uke.

O’Sensei era rápido, com incrível energia, com muita pressão no seu golpe. Nas exibições, os Uke caiam a todo instante, por que a mão do Fundador penetrava no campo deles logo que iniciavam o movimento; não havia como reagir. Os braços do Mestre eram de poder e velocidade surpreendentes, ele parecia possuir uma força sobre-humana; não se contraia para produzir energia, ao contrário, entrava de uma forma relaxada e natural. Mesmo quando os Uke atacavam com raiva, não conseguiam confundir e imobilizar o Fundador, que permanecia sempre indiferente sereno e atento, mas esvaziava o ataque dos Uke, como se drenasse o Ki deles. Ueshiba O’Sensei realizava as técnicas sempre com o mesmo poder.

Nos treinos, o Fundador nunca chamou a atenção dos alunos quanto a pontualidade ou faltar, porem sempre demonstrava, em suas ações, sendo pontual e não faltando; era rigoroso consigo mesmo, não importava o que acontecia, não importa o clima, nunca se atrasava. Não falava sobre as técnicas com muitos detalhes, mas ele tomava as mãos dos alunos e ensinava conscientemente, com bastante cuidado; transmitindo uma experiência que é um verdadeiro tesouro. Ensinava que através da conexão com o Hara, estamos frente ao nosso próprio hara, que devemos caminhar em direção ao Hara de Uke; desenvolvendo uma conexão e alinhamento perfeitos, com o tempo : assim, conectados, realizamos o verdadeiro Irimi. A transformação vai acontecendo de maneira gradual e imperceptivel, até que adquirimos consciência disto. No início, não estamos cientes, e confundimos a força física com a força Kokyu; conforme os anos passam, o uso da força física desaparece. Para desenvolver isto, recomendava a prática de Muga no Kyochi (o reino do não-self)

Quanto ao Shugyo, dizia O’Sensei:"É uma questão de progresso constante."

Boa Reflexão.

Oss.

Baseado em artigos de de Stanley Pranin Sensei, Inoue Sensei e Cristopher Li Sensei)

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Coração e Consciência – Poema do Imperador Meiji


Este poema numero 13 (Kokoro), nos remete ao terceiro capítulo da obra Genji monogatari (Os contos de Genji), que é considerada uma das maiores obras da litura japonesa, escrita em ter o século X e XI, atribuída a escritora Murasaki Shikibu; cada estudo de um poema do Imperador Meiji, me surpreende a riqueza de detalhes e ensinamentos contidos naquelas poucas palavras. 

Genji monogatari transcorre no período Heian, obra considerada como o primeiro romance psicológico do mundo, sendo considerado pela maioria dos estudiosos como o conto mais antigo da literatura japonesa. Texto escrito nos estilo Waka, com poemas que apresentam o sentido Omote (social, direto, explicito) e o sentido Ura (indireto, oculto, reflexivo); da mesma maneira são os ensinamentos nos poemas do Imperador Meiji.

O Conto de Genji narra a vida de um dos filhos do Imperador, Hikaru Genji , que por razões políticas, é relegado ao status de cidadão (por ser dado o sobrenome Minamoto, retirando-o da linha de sucessão, para que ele não derrube o príncipe herdeiro) e faz carreira como oficial imperial. O conto se concentra na vida romântica de Genji, mas descreve os costumes da sociedade aristocrática da época.

No capitulo Utsusemi, Genji fala do seu sentimento causado pela rejeição de uma jovem mulher, a quem chama de Utsusemi ( a senhora da casca de cigarra). O texto descreve que nosso protagonista, escondido, observa a dama jogando Go com Nokiba-no-ogi; Genji acha que vai surpreender a mulher. Porem esta percebe que está sendo observada, e, discretamente, ela parte do aposento, sem ele perceber, usando um artifício: ao andar suavemente, deixa para trás vestimenta externa, como a casca de uma cigarra (Utsusemi), iludindo o protagonista, ela parte livremente (como ele escreveria mais tarde em seus poemas).

Este poema do Imperador nos remete a uma imagem que compara a carapaça da cigarra com as vestimentas das damas da corte da Antiguidade, que usavam o impressionante Karaginumo (ou Jūni-hitoe, “as doze molduras da pessoa”); doze quimonos da mais fina e luxuosa seda, sobrepostos (Uchiki), cada um levemente mais curto que o anterior. O último Uchiki era um sobretudo, e quando as damas soltavam os cabelos, estes ficavam até abaixo da cintura, sendo está uma das características de uma cigarra muito especial, no Japão (Suisha Coreana, característica do final do verão e inicio outono), que parece ter longa cabeleira (além de possuir um mimetismo, que faz ser difícil de identificá-las), daí a analogia de Utsusemi.

Aqui, o poema do Imperador parece evocar vários significados:

- A metamorfose, como sair da carapaça, brotar do interior, ser flexível para alcançar a maturidade. A cigarra se prepara de 2 a 5 anos (tem espécies 15 a 17 anos) para então viver de 2 a 4 semanas. No Genji Monogatari, este capítulo parece ter transcorrido no outono; o sentido do poema parece ser a transformação no “final do verão da vida”, quando nosso Kokoro se torna livre dos apegos e das paixões.

- A maioria das cigarras têm um canto muito alto (Omote), mas existem espécies inaudíveis ao ser humano: não ouvir não significa que nada está acontecendo; a nossa evolução pode ser discreta e silenciosa, sem que os outro percebam (Ura).

A partir o texto original em japonês, podemos transcrever desta maneira:

Coração(Espirito-Mente) (Kokoro)

Sendo flexível como na transformação da ninfa, (Ikanaramu)

Alguma coisa acontece também, (aru toki mo)

Como na carapaça da cigarra, (Utsusemi no)

Na mente (espírito, coração) do ser humano, (Hito no kokoro yo)

Que se torna rico e livre. (Yutaka naranamu)

(Lembrar que o texto da segunda linha nos remetem também a expressão ‘Kokoro o utsu’, que significa tocar, mover, impressionar.

Lembrar, também, que na poesia japonesa o termo Utsusemi é indicativo do final do verão).

Em Arte Marcial, existe uma analogia com Ushiro Ryu Kata Dori; quando devemos ser flexíveis e nos deslocarmos sem esforço, como deixando a carapaça externa. Ueshiba O’Sensei ensinava que nossa evolução acontece a partir do nosso Kokoro (coração-mente-espirito), que esta transformação é o caminho para a Maestria:

“Cada um e cada mestre, independentemente da época ou lugar,

Ouviu o chamado e alcançou harmonia com o Céu e a Terra.

Há muitos caminhos que levam ao topo do Monte Fuji,

Mas só há uma ápice - o Amor.”

Boa Reflexão.

Oss.

Texto baseado em monografias sobre os Poemas do Imperador Meiji e sobre o Terceiro Capítulo do Geiji monogatari, além de textos sobre os ensinamentos de Morihei Ueshiba O’Sensei.




quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Poder da Água – Poema do Imperador Meiji

Embora o poema numero 26 do imperador Meiji, tenha o nome de água, apenas, acrescento o termo poder para diferenciá-lo de outros. Este é um poema que Mikao Usui Sensei destacou, e que, ao mesmo tempo, tem correlação com as Artes Marciais, principalmente, Aikido, Shin’ei Taido, Sogobudo, Kitaido, Shintaido, etc.

O Imperador Meiji já atribui a qualidade de uma água pacífica, que não se opõe ao navio, porem pode transformar-se, ser poderosa como o aço; vai depender de nosso foco. Ao mesmo tempo, o Kanji Utsuwa, além de navio, também pode ser vaso ou receptáculo, dando o sentido de ser flexível ou moldar-se. Óutro sentido oculto, é que a água não pode permanecer pressa, pois é de sua natureza, fluir. Se aprisionada, se torna forte o suficiente para romper o recipiente.

Lendo este poema, me vem à mente um ensinamento de Kawanabe Shihan, da atuação da respiração como a água do mar: onda esta que pode ser fraca ou poderosa; toda técnica é expressão desta respiração. A técnica poder ser feroz como um furacão ou calma como uma brisa, tudo vai depender da pulsação Hara-Respiração. Havendo foco, somos a respiração presente, o movimento presente, o instante presente; como foco, só existe a consciência e o Fluxo da Realidade.

Alguns autores, dizem que este poema denota que as pessoas devem ser flexíveis em todas as situações, assim como a água, tanto nos pensamentos como nas relações humanas. Que este poema nos exorta a sermos pacientes como as gotas na rocha, que havendo foco (concentração), obteremos resultado.


O Kanji shitagau apresenta o significado implícito de submissão, seguir, acompanhar, obedecer, dando idéia do natureza da água. A utilização de Hagane, que seja um kanji, vai lembrar as qualidades do outro kanji, já que são muito semelhantes: um significa aço, o outro a qualidade de ser grande.    

Interessante, este poema termina com uma palavra em que o Imperador Meiji, nos faz recordar de muitos fatos da Tradição. Narikere evoca a antiga peça Sumidagawa, quando uma mãe chora no tumulo de seu filho, falando da terna piedade com preenchimento dos corações, falando do amor por alguém que não se encontra presente: “naru koso aware narikere, aware nari kere”. Este poema do Imperador, não denota algo trágico e sim o oposto, é um conselho otimista.

Devemos prestar atenção, embora o termo “mizu no” esteja numa linha e “chikara” em outra, o termo é “mizu no chikara” (o poder da água); em japonês o arranjo espacial das estrofes é diferente, encontramos diversas maneiras.

Uma versão possivel, seria:

“Água

O Navio nela está.

Servil e serena ela permanece,

Mas assim como o aço,

O poder da água transpassa,

Ainda muito além.”




“Utsuwani (barco, vaso, utensílio, receptáculo) wa
shitagai (obedece) nagara (por enquanto, tempo)
hagane mo como aço
toosu wa mizu no a água pode atravessar (cortar)
chikara( poder, força) narikere (muito ainda,ainda, será).

(Mizu -Água)

Boa Reflexão.

Oss.

Baseado no poema do Imperador Meiji, Usui Reiki Ryoho Hikkei, textos de Kawanabe Shihan,textos sobre Mikao Usui Sensei e estudos dos poemas comparados com contos históricos e peças pertencentes a Tradição.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A Técnica de Okuyama Sensei – Parte 2

































Já Kase Sensei, em uma palestra em 2000, em Andorra, contou que para exemplificar como era Tadao Okuyama, se referiu a um encontro de 5 Universidades para um exame de Dan. Após Kata, Kihon e Kihon-kumite, os aspirantes eram classificados pelos mais graduados. Após isto, havia kumite entre os aspirantes. No final, poderia haver um kumite entre um sênior com aspirantes.

Conta Kase Sensei: "E é aí que Okuyama Sensei apareceu e eu tenho uma lembrança incrível, porque ele atacou com maior velocidade e força que os outros, os aspirantes do exame não conseguiam nem reagir, não havia nenhuma maneira de se defender do Sensei Okuyama; quando queríamos reagir, já o tinhamos em cima de nós, com o punho na nossa face. E todo mundo ficou impressionado com o nível impressionante.”

Sobre a origem desta técnica, ambos Senseis nos relatam fatos que nos levam a Yoshitaka (Gigo) Funakoshi e a Seita Omotoo Kyo ((e a Inoue Sensei).

Harada Sensei conta que Yoshitaka Sensei praticava com o Bo e o Ken, ninguém sabia a que nível chegou, nem mesmo os seniors Egami e Okuyama (mesmo este sendo seu discípulo predileto). Higaonna Sensei, do estilo Goju ryu de Okinawa, ensinava que, trabalhando com Bo ou um sabre de madeira, a maneira como se utiliza os músculos do corpo é totalmente diferente quando só se trabalha só com as mãos. “O karate de Yoshitaka era muito dinâmico, elástico, com origem no seu estudo do Bo.Tinha estado em Okinawa por várias vezes para aprender o Karate e o Bo.” – nos conta Harada Sensei, que continua explicando, que após os treinos da manhã, Okuyama Sensei passava as tardes treinando com Yoshitaka Sensei.

Kase Sensei, em uma entrevista a um periódico belga, considerava Tadao Okuyama o que tinha alcançado a técnica “mais elevada”, daquela geração de discípulos de Waka Sensei. Atribui a esta técnica de Okuyama Sensei, quando foi para as montanhas meditar e depois ficar na Seita Omotoo Kyo, por anos. Foi dito que Tadao se tornou guarda-costas dos Deguchi, devido a sua técnica, e a o mesmo tempo exigia um treinamento constante (provavelmente com Inoue Sensei). Que nos anos cinqüenta, durante os treinos, durante os treinos, Tadao Okuyama sempre pedia aos mais novos precisão (intenção) e velocidade.

Harada Sensei nos conta que Okuyama praticava todos os dias, mas achava difícil entender sua ténica. Tadao Sensei não mostrava muito mais do eles já sabiam, porém insistia constantemente na constantemente na "sensação":

o tipo de sensação, cada vez que ensinava algo, enfatizava a importância desta sensação. O jovem Harada descreve que era difícil, para ele na época compreender esta correlação, da sensação no momento presente. Que Okuyama Sensei dizia para eles, que a técnica devia sempre aprimorar.

Nos últimos anos de sua vida, Okuyama Sensei dizia lecionar Budo, sempre ligado a Omotoo Kyo, como Inoue Sensei. Uma vez por ano, ia treinar com Kawanabe Shihan, no Dojo de Hon-Atsugi; presenteou Kawanabe Shihan com um Ken que ele mesmo fez e usou até os últimos dias. Tadao Okuyama faleceu em 2002, na cidade de Kyoto.

Boa Semana.

Oss.

Texto baseado em entrevistas de Kawanabe Shihan, Kase Sensei e Harada Sensei.


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domingo, 3 de novembro de 2013

A Técnica de Okuyama Sensei – Parte 1


As primeiras vezes em que ouvi falar de Okuyama Sensei,foi através de entrevistas com Kawanabe Shihan, com Taiji Kase Sensei e com Mitsusuke Harada Sensei. Tadao Okuyama nasceu em 1918, na província de Ehime (Ehime-Ken), a noroeste de Shikoku. Conhece o Karate-Do de Funakoshi O’Sensei, quando entra para estudar na Universidade de Waseda, Iria conhecer Inoue Sensei, que se torna seu segundo mestre por muitos anos, quando começa sua busca e Shugyo, ao encontrá-lo na Omotoo Kyo.

Conta Kase Sensei: "Com Sensei Okuyama eu estudei Karate em grande profundidade. Ele sempre disse que é importante repetir e repetir para obter mais velocidade e potência e atingir um nível mais elevado de Karate. Okuyama Sensei estava sempre se perguntando, como ele poderia melhorar a velocidade e o poder das técnicas, como é que tem que praticar para ser mais forte e mais rápido.Como poderia usar o poder da mente,da respiração e tensão muscular. Ele dizia que o homem tem que se libertar. Que temos que saber como obter mais energia do que a mera força muscular. Ele disse que temos de seguir o caminho do Budo;que temos que obter a harmonia do " Ten -Chi -Shin " ( céu -terra- homem ) . Como eu poderia conseguir essa harmonia , como conseguir o poder do universo? Às vezes nós praticavamos à noite, na escuridão completa , e ele me ensinou a reconhecer e bloquear ataques no escuro.”

Certa vez, Kase Sensei teve de sentar do lado de fora do Dojo e ficar observando a chuva caindo. Tinha que tentar seguir cada gota de chuva, com os seus olhos. Depois foi-lhe explicado que era um treinamento para os olhos, aprimorar o reflexo ocular para poder reconhecer os movimentos.

Mais adiante, era estimulado a calcular e perceber as disctâncias, aprimorando sem senso de distância.

Como treinavam todos os dias, no ínico Kase Sensei, não podia levantar-se cedo pela manhã, porque ficava extremamente cansado; assim, Okuyama Sensei costumava jogar água no rosto, dizendo que era para acordar os sentidos. Depois de um tempo, quando Okuyama sensei começava a abrirt a porta do alojamento, o jovem Kase já acordava imediatamente. Este tipo de treinamento era considerado pelos Deshii como uma maneira de desenvolver todos os meus sentidos. "

Já Harada Sensei contou, em uma entrevista, que Okuyama Sensei era um gênio, mas gênio excêntrico. Que Egami Sensei, dice, certa vez, que no nível técnico Okuyama havia superado ao Mestre Yoshitaka.

Após 18 meses de treinamento diário com diariamente com Egami Sensei, o jovem Harada teve que enfrentar o graduado Okuyama, pois todos pensavam que ele estava pronto. No Dojo, após a reverência, quando o jovem tentava armar o kamae, se viu caído no solo. Mestre Okuyama disse-lhe para fazer o kamae mais uma vez,e mesmo assim, antes de seu primeiro movimento, já se encontrava no chão de novo. Okuyama Sensei se dirigiu a Egami Sensei e,então, diz: "Mas o que você está ensinando a Harada?"- virou-se, dando as costas e partiu.

Mestre Egami olhou para Harada Sensei e disse: "Eu não compreendo Okuyama, não consigo (compreender), eu desisto, eu desisto."

No nível técnico Okuyama tinha um sistema de “absorver para devolver”, utilizando todo o corpo relaxado, mas os seus músculos eram explosivos, como uma serpente prestes a atacar, contava Harada Sensei. Um dia, eles estavam assistindo a um treino em Waseda, quando Kamata Sensei explicava que o estilo de Okuyama Sensei: Assim que estava dando o passo, já liberava o braço; ele possuía um ímpeto inicial explosivo que se unia a projeção dos braços.

(Continua)

Texto baseado em entrevistas de Kawanabe Shihan, Kase Sensei e Harada Sensei.


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terça-feira, 29 de outubro de 2013

A Prática da Não-Contração – Parte 2

Ao mesmo tempo, sabemos que a pesquisa iniciada por Shimoda Sensei, levou ao desenvolvimento de novas posturas, sendo continuado por Yoshitaka Funakoshi com um pequeno grupo de estudantes, entre eles Shigeru Egami e Genshin Hironishi, segundo relatos do próprio Egami Sensei, e outros autores. O Karate-Do evoluia com o resultado de suas descobertas de uma movimentação mais natural, as posturas se modificam, com relação à mecânica corporal e livre de tensões desnecessárias. Muitas mudanças e novidades que ocorreram também foram desenvolvidas por Gigo Funakoshi Sensei e seu grupo de discípulos; como citam Harada Sensei, Layton, Cattel, entre outros autores. Posteriormente, a morte de seu Mestre Yoshitaka, Shigeru Egami Sensei e seus discípulos, como Aoki Sensei e Miyamoto Sensei, prosseguem as pesquisas. Egami Sensei escreveu: “As mudanças que aconteceram, não significam que foram simplesmente aspectos técnicos, mudanças também ocorreram na maneira de pensar. (Através) da prática você pode esclarecer a relação entre corpo e mente, entender a relação entre a própria mente e a mente do outro, e procurar os segredos mais íntimos do ser humano.” 

Após a morte de Gichin Funakoshi O’Sensei , autores como Hironishi e Sugimoto, citam dois estilos claramente diferentes ; no final dos anos 80, Sugimoto Sensei, classificaria ambos pela forma como a força é gerada, como estilo de contração e estilo do relaxamento:

1) Se a força se origina a partir de contração, isto faz com que permaneça dentro do corpo.

2) A força que é emitida e deixar-se fluir a partir de um único ponto.

Mestre Sugimoto diz que ambas são obviamente forças, porém têm características diferentes; o estilo aonde a força é obtida se contraindo os músculos de uma forma violenta, movimentos são interrompidos abruptamente, o que geraria os estalidos nas roupas de prática (Keiko-gi). Afirma que até mesmo a respiração seria inconscientemente interrompida na ocasião:

“Devido a esta contração todos os movimentos são limitados em seu raio de ação, a livre circulação é limitada, o ritmo da respiração é interrompido e a transpiração aparece. embora as técnicas podem parecer eficazes , e há uma sensação de muito trabalho físico, a maior parte da força está bloqueado dentro do corpo, em vez de sair . Devido a esta força de retenção ,todo o corpo vibra , produzindo a ilusão de que o movimento é forte e eficaz.”- dizia o Mestre. Já na não-contração, descreve que a força é emitida e liberada a partir de um ponto, que seria a força que as pesquisas de Funakoshi e seus discípulos verificaram. Mestre Sugimoto considerava ser um desperdício a energia retida no interior do corpo, não utilizada na transmissão real em direção ao objetivo.

Mestre Egami escreveu, em 1976: “Dois pontos são cruciais (em um tsuki): 1) Relaxamento e 2) concentração de força (Ki). Se o corpo está tenso ou rígido, o Ki (dos cotovelos, ombros, barriga, quadris e pernas) não pode ser liberado. A força não pode ser dispersa por todo o corpo, ela deve ser concentrada no punho sozinho”.

É muito interessante a citação de Isao Obata Sensei: “Karate é uma Arte que deve ser considerada como tal, com sua totalidade do pensamento filosófico e desenvolvimento da mente em harmonia com o corpo; se não for pensado dessa maneira, é sem valor. . . Ele seria como comer apenas a casca amarga da maçã , deixando a polpa interior intocada; é essa premissa fundamental que está sendo negligenciado hoje,(...).”

Após o término da Segunda Guerra Mundial, Egami Sensei prossegue na tentativa de descobrir se seu tsuki era verdadeiramente eficaz, descreve este dilema em 1972:

Egami Sensei escreve, em 1972 sobre o seu dilema, e sua decisão de que a única maneira de uma pesquisa eficaz, embora perigosa, seria receber golpes de Artistas Marciais pertencentes a vários estilos e Artes Marciais; e até mesmo de pessoas comuns, que não praticaram Artes Marciais: ”Se o ataque do adversário não tem qualquer efetividade de verdade, você não precisa seriamente impedi-lo, você não precisa mesmo de uma técnica. Um tsuki verdadeiramente eficaz deve ser combatido com um bloqueio sério ou técnica de evasão. É aí quando o verdadeiro treinamento (keiko) começa.” Afirmou que teria recebido milhares de golpes em seu abdômen e no rosto; e que, em sua avaliação, o que seria o segundo tipo de tsuki mais eficaz, por incrível que pareça, pertence ao grupo de pessoas que nunca praticaram Artes Marciais. Sensei atribuía este resultado ao fato de diferentes artistas marciais colocarem muita energia no punho e nas articulações do cotovelo e ombro, inevitavelmente bloqueando e dissipando a energia antes de atingir o objetivo; já os não-praticantes tinha um atitude de não-contração.

No início dos anos 50,quando Tadao Okuyama Sensei retorna ao Dojo de Waseda, demonstra a Egami Sensei um método de ataque eficaz que o envolveu, aonde tinha eliminado toda a tensão do punho, cotovelo e ombros. Egami Sensei descreve: “Eu fiquei atônito. a diferença não reside na forma, o que foi mudado foi pouco, mas no conceito. na verdade ele quebrou todos os precedentes; fez a minha mente começar tudo de novo e praticar com este novo conceito. minha maneira de prática era completamente diferente, a partir de movimentos rígidos; nosso ritmo parecia semelhante a um Pinocchio. Eu só consegui realizar o mesmo feito, após meses e meses de estudo com este jovem karateka.”

“Quando eu praticava, as imagens dos Mestres como Funakoshi O’Sensei, Takeshi Shimoda Sensei e Gigo Funakoshi Sensei, surgiam na minha mente, e eu podia ouvir suas palavras de forma clara, como se eles estivessem me ensinando no Dojo. Lembrei-me de como o Mestre me atingiu de uma forma natural e leve, como Shimoda fez isso de ânimo leve, mas com precisão, e como o mais jovem Funakoshi fez isso tão rápido e com tanta força, apesar de seus braços estarem pendurados ao lado do corpo. Lembrei-me, também, como eu não podia evitar o golpe e como doía quando me atingia.”

Egami Sensei expressou, em suas pesquisas, o desejo de Mestre Funakoshi, que transformações, levassem a possibilidade de qualquer um poder praticar, fossem homens, mulheres, crianças ou idosos. Ao eliminar a tensão muscular, os praticantes podem encontrar o seu próprio ritmo e o caminho para o corpo ideal, a mente e o espírito através da forma da não-contração.

Boa Reflexão.

Oss.

Baseado em artigos sobre Egami Sensei e o seu livro The Way of Karate , Beyond Technique.


Para Ler a Parte 1 - Clique Aqui

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A Prática da Não-Contração – Parte 1

Uma das coisas que me levou ao estudo do Shin’ei Taido e do Sogobudo, foram os estudos e a prática de Shigeru Egami Sensei; os conceitos que me foram transmitidos, são muito próximos do Aikido. Conceitos de uma fonte única para todas as Artes Marciais, de que o ser humano não pode esquecer-se de sua parte espiritual, que tudo é unidade, que não existem adversários e sim pessoas com medo, de que toda vida é preciosa, de que a natureza é preciosa; entre tantos outros. Encontrei muitos textos que falavam da pesquisa incessante de Egami Sensei, após a volta de Tadao Okuyama Sensei ao Dojo de Waseda; este último com uma técnica indefensável e extremamente devastadora. Muitos graduados de Waseda, após este acontecimento, inclusive Egamei Sensei, vão estudar com Okuyama Sensei e Noriaki Inoue Sensei. 

Egami Sensei escreveu tanto sobre a técnica, mostrando as dúvidas e descobertas de um praticante, sobre o aparente paradoxo da utilização da força muscular extrema e a eficácia da prática de relaxamento, levando a uma postura física e mental, em que o Ki circula livremente, tornando a técnica extremamente eficaz.

Egami Sensei cita em seu livro: "Os animais não são musculosos, por que um homem deve ser? Maleabilidade e flexibilidade são características naturais do corpo humano; rigidez é a marca da morte."

Devemos lembrar, que Tadao Okuyama Sensei e Shigeru Egami Sensei foram instrutores de Mitsusuke Harada Sensei por anos; e que além deles, também foram discípulos de Inoue Sensei : Aoki Sensei, o filho de Egami Sensei, ,Kawanabe Sensei, entre outros.

Segundo Kenji Tokitsu Sensei, que também pesquisou incessantemente a ação da energia na Arte Marcial, ele começa a perceber que a solução para a não-tensão na prática marcial, seria alcançar a unidade da mente e do espírito. Sobre isto, escreveu Egami Sensei:

“Eu refleti sobre o assunto, eu sofri, me atormentado e acabei descobrindo que existe um método espiritual Shinpo pelo qual a força está concentrada na técnica. A verdadeira força só aparece quando o corpo e o espírito são um só. Com essas conquistas eu, mais uma vez, me submergindo em treinamentos que me fazem superar a situação primária da arte do combate, o estado animal de combate, onde você busca ganhar a qualquer preço e sim se esforçar para alcançar uma fusão com o meu adversário. Eu saí do mundo de conflitos e encontrei-me em um mundo de harmonia e eu entendi que era dessa forma que eu seria capaz de encontrar o caminho, o verdadeiro caminho do Karate. A idéia de Harmonia e da forma como pode parecer frágil e fraco para um iniciante ou aqueles que valorizam o lugar da força física, mas não há nada mais forte do que a harmonia e o caminho, porque eles são colocados no pico mais alto da pesquisa dentro de uma Arte Marcial.”

Devido a extensão deste excelente texto, que nos mostra a caminhada e a evolução dos conceitos, resultantes da pesquisa e observação do trabalho de não-tensão (seja mental ou muscular) e tomada da consciência corporal; este texto será dividido em partes.

Vários autores fazem uma classificação interessante, dividindo em duas as tendências principais no que diz respeito à sua atitude em relação ao que consideram estudo de uma técnica eficaz: o estilo da “contração” e o estilo da “não- contração”. Cita-se, que quando o Mestre Gichin Funakoshi introduziu o Karate no Japão continental de forma definitiva em 1922, este era considerado como uma Arte Marcial de auto-defesa, de Okinawa com influência das Artes Marciais chinesas . As técnicas seriam realizadas com posições corporais mais altas; como pode se visto em vídeos antigos. Tecnicamente, defesas e ataques eram técnicas de braço e punho; muito poucas técnicas de perna; desde aquele período, posturas e técnicas têm sido amplamente pesquisadas, segundo escreveu Egami Sensei.

Quando Gichin Funakoshi O’Sensei começou a expansão de sua Arte na década de 1930, com mais de 60 anos de idade,ele tem uma forte aceitação e crescimento dentro do círculo universitário; porem, muitos estudantes, pareciam não compreender bem o que O’Sensei lhes ensinavas. Mestre Shigeru Egami mencionava que achavam que O’Sensei aplicava golpes de uma forma não-contraída; e a maioria dos alunos acreditava que ele assim o fazia por não ser capaz de tensionar seus músculos, devido à idade. Mestre Mitsusuke Harada também menciona como a técnica de Mestre Funakoshi conseguia parecer enganosamente suave: “O velho Mestre golpeava o makiwara mil vezes por dia , para a esquerda e para a direita levemente, soltando um suave som ‘hoi’; os socos de Funakoshi não pareciam fortes para o observador , mas eram, de fato , muitos poderosos .”

Em outro relato de Harada Sensei, o Mestre Funakoshi diz para o jovem discípulo: “Isto é como Itosu (ou Azato , Mestre Harada não se lembra ao certo qual dos dois foram citados por O’Sensei) poderia parar um homem”; e, logo após, Mestre Funakoshi o iria tocar levemente com um ippon -ken no tórax.

Mesmo sendo ensinados ao estilo da não-contração, os estudantes mais jovens treinavam com contração porque acreditavam que a contração era a forma certa de executar técnicas eficientes e fortes. No final dos anos trinta e década de 40, um espírito militarista prevalece, e, quando Yoshitaka (Gigo) Funakoshi Sensei, assume a instrução no lugar de seu pai , em 1932, depois do falecimento de Takeshi Shimoda Sensei devido a um processo pulmonar (gripe ou mesmo uma tuberculose não bem diagnosticada, Waka (Gigo) Sensei, sente estar muito doente (sua tuberculose, que vinha desde a infância, evoluía, que o levou ao óbito por gangrena ou abscesso pulmonar), e, parece ter enfatizado um treinamento forte, novamente. Alguns autores acham que, possivelmente, ambos fatores poderiam ter revivido o estilo de intensa contração muscular. O próprio Egami Sensei, no passado,também foi acometido de tuberculose pulmonar.

Kase Sensei cita em uma entrevista, que o próprio Waka Sensei, pede ao seu discípulo Tadao Okuyama para continuar as pesquisas de um caminho para a evolução da técnica. Depois disto, Okuyama Sensei, sai de Waseda, por anos, atendendo ao pedido de seu Mestre. Sabemos que ele foi para o núcleo da Omotoo Kyo,
 após a morte de Waka Sensei, e se torna discípulo de Inoue Sensei, com quem treinou por anos, até retornar a Waseda.

(continua)


Baseado em artigos sobre Egami Sensei e o seu livro The Way of Karate , Beyond Technique.


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domingo, 27 de outubro de 2013

As Três Portas da Libertação – Parte 3

Continuação do texto de Thich Nhat Hanh:

“A Terceira Porta da Liberação é a ausência de objetivo.

Não há nada a fazer, nada a realizar, nenhum programa a ser cumprido, nenhuma agenda. Esse é o ensinamento budista sobre os fins últimos do homem. A rosa tem que fazer alguma coisa? Não, o objetivo da rosa é apenas ser uma rosa. Seu objetivo é ser quem você é. Você não precisa sair correndo e se tornar outra pessoa. Você é maravilhoso do jeito que é. Esse ensinamento do Buda permite que a gente se divirta, contemple o céu azul e tudo o mais que é tão bom e refrescante no momento presente.


Não há nenhuma necessidade de inventar objetivos para depois correr atrás deles. Nós já temos tudo o que é necessário, já somos aquilo em que desejamos nos tornar. Somos todos Budas, por isso podemos dar a mão a um outro Buda e praticar a meditação andando. Esse é o ensinamento do Avatamsaka Sutra. Seja você mesmo, a vida é preciosa do jeito que é. Não há necessidade de correr, lutar, carregar fardos nem disputar coisas. Podemos apenas existir. Estar aqui, neste momento, neste lugar, já é uma forma profunda de meditação. A maioria das pessoas não acredita que caminhar sem pressa e despreocupadamente seja o bastante. As pessoas acham que lutar e competir são coisas normais e necessárias. Tente praticar a ausência de objetivos por cinco minutos apenas, e observe como será feliz durante esses cinco minutos.

O Sutra do Coração diz que não há nada para ser atingido. Nós não meditamos para atingir a iluminação, porque a iluminação já está em nós, conseqüentemente não há necessidade de busca-Ia. Não precisamos de propósitos nem de metas. Nossa prática não visa obter uma alta posição. Quando praticamos a ausência de objetivo, entendemos que nada nos falta, que já somos tudo o que queríamos ser. Nessa altura, nossa luta desesperada principia a cessar. Fazemos as pazes com o momento presente, e conseguimos observar a luz do sol entrando pela janela e ouvir o barulho da chuva. Não precisamos mais correr atrás de coisas externas. Podemos usufruir esse momento. As pessoas discutem como chegar ao Nirvana, mas na verdade já estamos lá. A ausência de objetivo e o Nirvana são uma coisa só.

'Ao acordar hoje de manhã eu sorri.

Vinte e quatro horas, novinhas em folha, ao meu dispor.

Tenho a firme intenção de viver plenamente cada momento do meu dia,

E olhar para todos os seres com o olhar da compaixão.'

Essas vinte e quatro horas são uma dádiva preciosa, que só poderemos usufruir completamente quando tivermos aberto a Terceira Porta da Liberação, que é a ausência de objetivo. Se pensarmos que temos vinte e quatro horas para realizar alguma coisa, o dia de hoje passa a ser um meio para atingir um fim. O momento de cortar madeira ou carregar água é o momento que temos para sermos felizes. Não devemos esperar que essas tarefas estejam terminadas para só então sermos felizes. Ser feliz agora significa não ter metas agora. Se não fizermos isto, andaremos em círculo pelo resto da vida. No momento presente, temos tudo o que necessitamos para fazer desse momento o mais feliz de nossas vidas, mesmo se estivermos com dor de cabeça ou com um resfriado. Não temos que esperar o resfriado acabar para poder ser felizes. Resfriar-se é parte da vida.

Alguém me perguntou: 'Você não está preocupado com a situação do mundo?' Eu respirei e respondi: 'O mais importante é não permitir que a ansiedade em relação aos acontecimentos mundiais encha o seu coração. Se o coração for preenchido pela ansiedade, você ficará doente, e não poderá ajudar quando for necessário.' Existem guerras - grandes e pequenas - em muitos lugares, e isso pode nos tornar ansiosos. A ansiedade é a doença de nosso tempo. Estamos sempre preocupados conosco, com a família, com os amigos, com o trabalho, e também com a situação do mundo. Se permitirmos que a preocupação inunde os nossos corações, mais cedo ou mais tarde ficaremos doentes.

É verdade que existe uma enorme quantidade de sofrimento por este mundo afora, mas o fato de saber disso não significa que estamos paralisados. Se praticarmos a respiração, a caminhada, a meditação e o trabalho com consciência, e fizermos o melhor que pudermos para ajudar os outros, teremos paz no coração. A preocupação não realiza nada. Mesmo se nos preocuparmos dez vezes mais, isso não melhorará em nada a situação do mundo. Na verdade, a ansiedade só faz piorar as coisas. Mesmo sabendo que nada é como gostaríamos que fosse, devemos ficar contentes mesmo assim, porque estamos dando o nosso melhor, e continuaremos a fazer isso. Se não soubermos respirar, sorrir e viver com atenção e profundidade cada momento de nossa vida, nunca poderemos ajudar ninguém. Sou feliz agora. Não me falta nada. Não espero nenhum tipo de felicidade adicional nem condições ideais para poder ser mais feliz ainda. A prática mais importante de todas é ausência de objetivo, em vez de ficar correndo atrás das coisas intensamente.

Aqueles dentre nós que tiveram a sorte de conhecer e praticar a atenção plena têm a responsabilidade de trazer paz e alegria para as suas vidas, mesmo que as condições do corpo, da mente ou do meio ambiente não sejam exatamente as que gostaríamos. Sem felicidade não poderemos ser um refúgio para os outros. Pergunte a si mesmo. O que estou esperando para ser feliz? Por que não fico feliz agora mesmo? Meu único desejo é ajudar vocês todos a entenderem isso. Como podemos inserir a prática da atenção plena na sociedade? Como podemos ajudar o maior número possível de pessoas a ser feliz e a ensinar a arte da atenção plena a outras pessoas? O número de pessoas capazes de gerar violência é muito grande, enquanto que um número muito reduzido sabe respirar e gerar felicidade. Todo novo dia representa mais uma oportunidade para ser feliz e ser um refúgio para os outros.

Não precisamos nos tornar nada além do que já somos. Não precisamos desempenhar nenhuma ação específica. Só precisamos ser felizes no momento presente, e dessa forma estaremos sendo úteis às pessoas que amamos e a toda a sociedade. A ausência de objetivo significa parar e entender que a felicidade está ao nosso alcance. Se for perguntado quanto tempo alguém precisa praticar para ser feliz, eu responderei que essa pessoa pode ser feliz imediatamente. A prática da ausência de objetivo é a prática da liberdade.”

Boa Reflexão.

Oss.

Baseado no livro “A Essência dos ensinamentos de Buda”, de Thich Nhat Hanh.


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sábado, 26 de outubro de 2013

As Três Portas da Libertação – Parte 2

Continuação do texto de Thich Nhat Hanh:

“A Segunda Porta da Liberação é a ausência de imagens.

Neste contexto, 'imagem' quer dizer uma aparência, ou um objeto da percepção. Quando vemos algo, é porque um sinal ou imagem aparece diante de nós, e é isso que chamamos de lakshana. Se a água, por exemplo, estiver em um recipiente quadrado, sua imagem é a 'quadratura' do recipiente. Se estiver em um recipiente redondo, será a 'redondeza'. Quando abrimos o congelador e tiramos gelo, a imagem recebida é de que a água está sólida. Os químicos chamam a água de 'H2O'. A neve nas montanhas e o vapor que se eleva da chaleira também são 'H2O'. Se 'H2O' estiver no momento redonda ou quadrada, líquida, gasosa ou sólida, dependerá das circunstâncias. As imagens são instrumentos para nosso uso, mas não são a verdade absoluta. Elas podem nos enganar. O Sutra do Diamante diz: 'Onde houver uma imagem, haverá uma ilusão'. As percepções costumam nos dizer tanto sobre quem percebe quanto sobre o objeto percebido. As aparências enganam.

A prática da Concentração na Ausência de Imagens é necessária para que possamos nos libertar. Sem enxergar além das imagens não atingiremos a realidade propriamente dita. Enquanto ficarmos presos às imagens - redondo, quadrado, sólido, líquido, gasoso - continuaremos a sofrer. Nada pode ser descrito em termos de uma imagem apenas. Mas sem imagens nós ficamos ansiosos. Nosso medo e nosso apego se devem a ficarmos presos a imagens. Até entendermos que todas as coisas têm uma natureza desprovida de imagens, continuaremos com medo e sofrendo. Para poder entrar em contato com a H2O, temos que esquecer de imagens tais como quadrado ou redondo, duro ou mole, pesado ou leve, em cima ou embaixo. A água, por si mesma, não é nenhuma dessas coisas. Só quando conseguirmos nos libertar das imagens estaremos aptos a penetrar no âmago da realidade. Enquanto não conseguirmos enxergar o oceano nos céus, continuaremos iludidos pelas imagens.

Um grande alívio advém quando rompemos as barreiras das imagens e atingimos o mundo que está além das imagens, o Nirvana. E onde devemos procurar este mundo sem imagens? Aqui mesmo, no meio do mundo das imagens. Se jogarmos a água fora, não haverá nenhuma forma de ter contato com a essência da água. Contatamos sua essência quando abrimos caminho através das imagens e chegamos à verdadeira natureza da interdependência dos seres. As três fases são a água, a não-água e a verdadeira água. A verdadeira água é a essência da água. O fundamento de sua existência não está sujeito ao nascimento nem à morte. Quando chegarmos a isso, não teremos mais medo de nada.

Quando chegarmos à ausência das imagens dentro das imagens, encontraremos o Tathagata. Esta é uma frase do Sutra do Diamante. Tathagata significa 'a natureza maravilhosa da Realidade'. Para ver a natureza maravilhosa da água é preciso olhar além das imagens (aparências) da água, e ver que ela é constituída de elementos não-água. Se você achar que a água é apenas água, que não pode ser o sol, a terra ou as flores, estará enganado. Terminará por entender que a água na verdade é o sol, a terra e as flores, e que apenas ao olhar para o sol, a terra e as flores você estará vendo a água. Isto é a 'ausência de imagens das imagens'. Um jardineiro orgânico que olha para uma casca de banana, folhas moitas ou galhos podres enxerga as flores, frutas e os legumes contidos neles. Ele saberia que as flores, as frutas e o lixo não têm existência independente. Ao aplicar esta compreensão a outras áreas de sua vida, o jardineiro pode atingir o despertar total."


Depois desta exposição sobre 'imagem', 'Realidade' e 'Ilusão', que nos faz refletir sobre a nossa prática, Mestre Thay, continua sua explicação:

"A ausência de imagens não é uma idéia apenas. Ao contemplar nossos filhos, vemos os elementos que os produziram. Eles são como são porque nossa cultura, economia, sociedade e nós mesmos somos do jeito que somos. Não podemos simplesmente culpar nossos filhos quando as coisas dão errado. Muitas causas e condições contribuíram. Quando soubermos transformar a nós mesmos e a sociedade, nossos filhos também se transformarão. Os jovens aprendem a escrever e ler, aprendem matemática, ciências, e outras matérias na escola para ajudá-los a ganhar a vida. Mas poucos currículos escolares ensinam os jovens a viver - como lidar com a raiva, como reconciliar os conflitos, como respirar, sorrir, como transformar as formações interiores. A educação necessita de uma revolução. Precisamos incentivar as escolas a ensinar a seus alunos a arte de viver em paz e harmonia. Não é fácil aprender a ler, escrever, ou resolver problemas matemáticos, mas as crianças conseguem. Aprender a respirar, sorrir e transformar a raiva também pode ser difícil, mas já vi muitos jovens conseguirem. Se ensinarmos às crianças valores adequados, quando elas tiverem apenas doze anos já saberão viver em harmonia com as outras pessoas.

Quando vamos além das imagens, entramos em um mundo onde não há medo nem culpa. Vemos a flor, a água e o nosso filho por um prisma que está além do tempo e do espaço. Sabemos que nossos ancestrais estão presentes dentro de nós, aqui e agora. Constatamos que Buda, Jesus, e todos os outros ancestrais espirituais não morreram. O Buda não pode ficar confinado há 2.600 anos. A flor não está limitada à sua breve manifestação. Tudo se manifesta por meio de imagem. Se ficarmos presos às imagens, sempre teremos medo de perder as manifestações específicas.

Quando um menino de oito anos que vivia em Plum Village morreu de repente, pedi a seu pai que mantivesse a plena consciência da presença do filho no ar que respirava e nas folhas de grama sob seus pés, e ele conseguiu fazer isso. Quando um conhecido professor de meditação vietnamita morreu, seu discípulo escreveu o seguinte poema:

'Irmãos de Darma, não se apeguem às imagens.

As montanhas e os rios que nos cercam são nossos professores.'

O Sutra do Diamante enumera quatro imagens - o eu, a pessoa, o ser vivo e o período de vida. Ficamos enredados na imagem eu, porque achamos que existem inúmeras coisas que não são eu. Mas quando contemplamos a questão com profundidade, vemos que não existe um eu separado e independente, o que nos liberta da imagem do eu. Entendemos então que para nos protegermos temos que proteger tudo o que não é nós mesmos.

Também ficamos enredados na imagem 'pessoa'. Separamos os seres humanos dos animais, árvores e pedras, e achamos que os não-humanos - peixes, vacas, plantas, terra, ar e mar - estão lá apenas para serem explorados por nós. As outras espécies também caçam para comer, mas não de uma forma exploratória como nós. Quando olhamos para a nossa espécie, vemos os elementos não-humanos contidos nela, e quando olhamos para os reinos animal, vegetal e mineral, vemos o elemento humano neles. Quando praticamos a Concentração na Ausência de Imagens, sabemos viver em harmonia com todas as espécies.

A terceira imagem é 'ser vivo'. Achamos que seres conscientes são diferentes de não-conscientes. Mas seres vivos ou sensíveis são feitos de espécies não-vivas ou não-sensíveis. Quando poluímos as espécies chamadas de não-vivas, como o ar ou os rios, estamos poluindo os seres vivos também. Se pensarmos na interdependência dos seres vivos e não-vivos imediatamente pararemos de agir deste modo.

A quarta imagem é 'período de vida', que é o período de tempo entre o nascimento e a morte. Nós achamos que só estamos vivos por um período específico de tempo, que teve um começo e terá um fim. Mas ao contemplar profundamente, constatamos que nunca nascemos e nunca morreremos, e nosso medo se dissolve. Com atenção plena, concentração e as Três Qualidades do Darma, podemos abrir a Porta da Liberação que é a ausência de imagens e conquista o maior de todos os alívios.”

(Continua)

Baseado no livro “A Essência dos ensinamentos de Buda”, de Thich Nhat Hanh.


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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

As Três Portas da Libertação – Parte 1

Este texto de Thich Nhat Hanh nos fala sobre as ‘Três Qualidades do Darma”, que são consideradas como as chaves de que dispomos para abrir as Três Portas da Libertação, a saber: o vazio, a ausência de imagens e a ausência de objetivo. As Escolas Budistas aceitam este ensinamento das Três Portas da Liberação ou Libertação. Essas três portas às vezes são chamadas de Três Concentrações. Mestre Thay diz que quando passamos por essas portas, adquirimos concentração e nos libertamos do medo, da confusão e da tristeza.

“A Primeira Porta da Liberação é o vazio.

O vazio sempre significa vazio de alguma coisa. O copo está vazio de água, e a tigela vazia de sopa. Nós estamos vazios de um eu independente e separado. Não podemos existir sozinhos. Só podemos existir em inter-relação com tudo o mais que existe no cosmos. A prática consiste em incentivar a compreensão do vazio durante todo o tempo. Aonde quer que vamos, entramos em contato com o vazio que existe em tudo. Olhamos para a mesa, o céu azul, o nosso amigo, a montanha, o rio, a raiva e a felicidade, entendendo que tudo isso está vazio de um eu independente e separado. Quando contemplamos essas coisas em profundidade, vemos a natureza interpenetrante e interdependente de tudo o que existe. O vazio não significa, em absoluto, não-existência. Significa Origem Interdependente, Impermanência e Não-eu.

Quando ouvimos falar de vazio, ficamos assustados. Mas depois de praticar por algum tempo, entendemos que as coisas realmente existem, só que de forma diferente do que pensávamos. O vazio é o Caminho do Meio entre a existência e a não-existência. A flor não se toma vazia quando murcha e morre, mas sempre foi vazia em sua essência. Ao olharmos em profundidade, vemos que a flor é composta de elementos não-flor - luz, espaço, nuvens, terra e consciência. Está vazia de um eu independente e separado. No Sutra do Diamante, aprendemos que um ser humano não é independente das outras espécies, e que para proteger os seres humanos é preciso proteger as espécies não-humanas. Se poluirmos o ar, a água, os vegetais e os minerais, estaremos destruindo nós mesmos. Temos que aprender a nos enxergar de outra maneira, vendo a nós mesmos naquelas coisas que sempre pensamos que estivessem fora de nós, e dissolvendo nossas falsas fronteiras.

No Vietnã, dizemos que se um cavalo estiver doente, todos os outros cavalos do estábulo recusam comida. Nossa felicidade e sofrimento são a felicidade e o sofrimento de todos. Quando agimos baseados no não-eu, nossa ações passam a estar em consonância com a realidade, e sabemos o que devemos fazer e não fazer. Quando temos consciência de que estamos todos ligados uns aos outros, adquirimos a Consciência do Vazio. A realidade está muito além de nossas idéias sobre ser e não ser. Dizer que uma flor existe não é exatamente correto, mas dizer que ela não existe também não é verdadeiro. O verdadeiro vazio é chamado de 'ser maravilhoso', porque está além da existência e da não-existência.

Quando comemos, devemos praticar a Porta da Liberação chamada de vazio. 'Eu sou este alimento. Este alimento sou eu.' Um dia, no Canadá, quando eu almoçava com a Sangha, um estudante me olhou e disse: ‘Estou alimentando você.’ Ele estava praticando a concentração no vazio. Cada vez que olhamos nosso prato de comida, podemos contemplar a natureza impermanente da comida. Esta é uma prática profunda, porque tem o poder de nos ajudar a enxergar a ‘Origem Interdependente’. Aquele que come e a comida ingerida são, por natureza, vazios. É por isso que a comunicação entre eles é perfeita. Quando praticamos a meditação andando de uma forma relaxada e pacífica, acontece a mesma coisa. Cada passo que damos não é dado apenas para nós, mas para o mundo. Quando olhamos para os outros, vemos sua felicidade e sofrimento ligados a nossa felicidade e sofrimento. 'A paz começa em mim mesmo.'

Todos aqueles que amamos um dia ficarão doentes e morrerão. Sem praticar a meditação no vazio, quando isto acontecer ficaremos arrasados. A Concentração no Vazio é uma forma de permanecer em contato com a vida como ela é, mas precisa ser praticada, e não apenas falada. Observamos nosso corpo e vemos as causas e condições que o fizeram existir - nossos pais, nosso país, o ar, e até mesmo as gerações futuras. Vamos além do tempo e do espaço, do eu e do meu, e experimentamos a verdadeira libertação. Se só estudarmos o vazio como uma filosofia, ele não será para nós uma Porta da Liberação. O vazio só se torna uma Porta da Liberação quando penetramos nele com profundidade, entendendo a natureza interdependente e o aparecimento conjunto de tudo o que existe.”

(Continua)

Baseado no livro “A Essência dos ensinamentos de Buda”, de Thich Nhat Hanh.


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