Esta Arte Marcial tem por característica resgatar toda Tradição Marcial dos primórdios da civilização japonesa, quando o homem vivia perfeitamente integrado consigo mesmo e com o Universo. Neste conceito, através do treinamento captamos a energia do Grande Universo e depois passamos a utilizá-la, tendo o centro do corpo como área de difusão. Através da consciência do fluxo de energia tudo é possível e podemos esquecer o uso da força física. Com a meditação, esvaziamos a mente e com a prática do Shin’ei Taido também.

Com a mente e o interior pacificados, não há medo, nem raiva, nem angústia nem pânico; saímos das emoções e dos pensamentos. Se considerarmos isto como objetos do aprisionamento humano, entramos na dimensão da Consciencia, aonde nos conduz o Shin’ei Taido. Tanto homens, mulheres, pessoas de todas as idades podem se integrar nesta prática saudável.

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sábado, 1 de dezembro de 2012

Ilusão e Iluminação
























Nascido na Prefeitura de Saga de Kyushu, Deshimaru foi criado por seu avô, um antigo Samurai anterior à Revolução Meiji, e por sua mãe, devota da seita Jodo Shinshu do Budismo. Quando jovem, por curiosidade, estuda o Cristianismo por um longo tempo, antes de finalmente decidir voltar para o Budismo.  Em 1935, quando ele foi estudar Economia em Tóquio, conheceu o grande mestre do Soto Zen Kodo Sawaki, de quem seguirá os  ensinamentos, se dedicando integralmente à prática do Shikantaza (Zazen).

Nestes texto, Sensei nos explica sobre a Vacuidade e a Natureza dos Fenômenos:
“Ku soku ze shiki. Shiki soku ze ku, devemos ir além, transcender, ao mesmo tempo, Shiki (fenômenos, aquela realidade que podemos ver e sentir) e Ku (Vazio, Vacuidade).
Devemos estar além da diferença e similitude; devemos ir além da Natureza dos Fenômenos e da Vacuidade, além do pensamento e do não-pensamento. Nesse momento, atingimos a Consciência Hishiryo (A Consciência Cósmica).

A interação é a lei de manifestação do poder cósmico fundamental; ou seja, ao manifestar-se, o potencial cósmico se dispersa e materializa a energia cósmica, que se divide em parcelas e se dispõe de acordo com uma ordem regida pela lei da interdependência. Somente essa lei dá à matéria a aparência fenomenal.  Se olhamos para a Vacuidade, vemos também os Fenômenos (Ku soku ze shiki : a Vacuidade são Fenômenos); se vemos os Fenômenos, olhamos para a Vacuidade (Shiki soku ze ku: os Fenômenos são Vacuidade).

O Sutra do Hannya Shingyo, o Sutra Prajna Paramita, gira em torno dessa fórmula; se compreendermos tal relação tudo se tornará fácil. Não se trata de pensar com o cérebro, mas de compreendê-lo plenamente através do corpo. A partir dos fenômenos,  da nossa vida cotidiana, voltar a Vacuidade, Zazen. E da Vacuidade voltar aos Fenômenos para ajudar todos os seres, harmonizando-se com eles.

Se todos os dias nos concentrarmos uma ou duas horas no verdadeiro Zazen, poderemos mergulhar nos fenômenos, voltar ao verdadeiro eu e espalhar nossa sabedoria pela vida quotidiana; Zazen torna-se o leme do nosso movimento na vida.  A verdadeira concentração não é pensada nem não-pensada,está além do pensamento, o pensamento absoluto; é o retorno a Vacuidade original, por efeito da concentração.  A concentração na Vacuidade contém, virtualmente, a expansão nos fenômenos.; a expansão fenomenal dos Fenômenos contém, virtualmente, a volta à concentração na Vacuidade; encontramos na Vacuidade o infinito e o eterno. Desse modo, a Vacuidade é sinônimo de Nirvana, outra coisa não é senão o Caminho do Meio.

Mujo: significa mudança, não-nascido, sem começo nem fim: sem nascimento, sem fim, somente mudança.  Não há começo, não há fim do cosmo. Num rio, vemos bolhas na água da corrente; a água torna-se bolha e torna-se água de novo.  Quando morremos, nossa vida não acaba; retornamos ao Cosmo, como as bolhas que estouram no rio. Devemos compreender a vida eterna.

Com freqüência, as pessoas amam a pureza e detestam a sujeira. Na sua origem, porém, todos os fenômenos, todas as existências do cosmo não são puras nem impuras. Tudo é idêntico. Mas pelo comportamento e pelo pensamento, as pessoas sujam e criam as separações. Em nosso globo, a terra, as montanhas, os rios, as florestas, os oceanos, etc; tudo é sem sujeira e sem pureza, é a nossa natureza. A purificação, a Terra Pura não existe em outro local, nem depois da morte; A Terra Pura há de ser construída aqui e agora.
Se tivermos o espirito bom, a consciência correta, a palavra exata, o comportamento adequado, se a boca, o corpo, a consciência, essas três atitudes forem corretas, o meio será justo. Só que, pela percepção, pelos sentidos, pela consciência, pelas sensações, tudo muda. As coisas tornam-se às vezes puras, às vezes impuras, os desejos nascem...

Pureza, sujeira, não se pode decidir. Nossa personalidade, nosso espírito original é sem pureza e sem sujeira, assim como é o Cosmo.  No nascimento, a consciência do bebê não está suja. Ele ignora a pureza ou as sujeiras. Mas, depois, a hereditariedade dos pais, o ambiente, as pessoas que o cercam, a educação não raro errada, influem nele progressivamente. O karma ignora a compaixão, o resultado, o efeito e vice-versa. Onde está o erro? O mérito? Só a consciência do ser humano decide a respeito dessas concepções.

Não há dualidade. Sem começo nem fim. Sem sujeira nem pureza. Sem crescimento nem decrescimento. É como a metáfora da água e das ondas: pela manhã há tempestade esse formam grandes ondas no mar. Quando a tempestade acabar, as ondas diminuirão, mas a água do mar não terá crescido nem decrescido.

A impermanência é a mudança perpétua de todas as coisas, portanto a não-entidade, a existência sem substância própria. No momento em que nasce, a chama morre; a chama que arde neste instante não tem nada em comum com a do instante precedente; a chama é a representação viva da não-substancialidade.

O potencial é o único dado permanente contido em cada uma das formas do manifestado, impermanente e fruto da interdependência; o potencial é permanente porque é eterno em tudo o que é e tudo o que não é. É independente porque é a causa e a condição de tudo o que existe; é o motor que produz e faz progredir o manifestado. O potencial existe em cada uma das formas-forças e em todas as relações que as ligam, desde o infinitamente pequeno até o infinitamente grande.

Dentro de toda manifestação permanece a plenitude da potencialidade, a qual contém a totalidade da manifestação. Essa potencialidade é o poder cósmico fundamental, a Vacuidade, o não-manifestado e é ainda o grande Tudo e o manifestado no que o Tudo e o manifestado têm, em sua mudança evolutiva, de não-manifestado e de manifestação em potência, como a semente é o não-manifestado da árvore e a contém em potência.  Seja como for, todas as existências são Vacuidade infinita (essência); tudo existe sem existir.  Tudo só existe na mudança e por ela, pois o que subentende a mudança é o potencial; devemos compreender que Mujo (a mudança) é a Eternidade.

No Zen, não há ruptura entre o material e o espiritual; toda impressão é, ao mesmo tempo, espiritual, e fica registrada nos neurônios do cérebro em forma de informação passível de atualização a qualquer momento.  O Satori só existe em função da ignorância e das ilusões. Desse modo, a ignorância e a ilusão são a condição necessária da existência do Satori. Não é necessário querer eliminar a ignorância, pois ela não tem existência real em nós. A ilusão não é uma coisa fixa, nem a substância de nosso espírito, mas um visitante, uma coisa que vem do exterior; é assim no tocante à cólera, à ignorância, ao medo, à ansiedade, à paixão, aos desejos: sem o vento, as ondas não aparecem na superfície do lago. No que se refere às ilusões, é a mesma coisa. Se não recebermos estímulos do exterior, elas não se elevarão: visitantes vêm do exterior. Ainda que recebamos estímulos do ambiente, se nesse momento preciso não estivermos apegados, a verdadeira Sabedoria aparecerá.
O sofrimento é tanto físico quanto psicológico, sentimental, intelectual ou racional. Desde que não podemos satisfazer nossos desejos, sofremos. Quanto mais aumentam os desejos, tanto mais se complicam os sofrimentos.

Todos os fenômenos cósmicos, todas as existências cósmicas constituem o potencial temporário existente, ou manifestado, atualizado no momento. Cada qual depende da lei da interdependência, em que a multiplicidade dos fenômenos depende da multiplicidade das relações que os subentendem. Por isso mesmo, ainda que os fenômenos temporários tomem forma ao nascer, se transformem e desapareçam, sua substância não foi produzida nem destruída; tampouco aumentou ou diminuiu. Pois essa substância é o próprio poder cósmico fundamental, eternamente imutável, potencialidade suprema da qual procedem todas as potencialidades fenomenais, existências em perpétua mudança; suas formas aparecem e desaparecem ao sabor das interferências cósmicas rigorosamente ordenadas, depois desaparecem, desagregando-se, liberando a essência que reencontra a própria origem.”

Boa Reflexão.

Oss.

Taisen Deshimaru Zenji em " O Anel do Caminho"

2 comentários:

  1. buenos días Ricardo,
    Muy buena reflexión, gracias por compartirla,
    un abrazo

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