Esta Arte Marcial tem por característica resgatar toda Tradição Marcial dos primórdios da civilização japonesa, quando o homem vivia perfeitamente integrado consigo mesmo e com o Universo. Neste conceito, através do treinamento captamos a energia do Grande Universo e depois passamos a utilizá-la, tendo o centro do corpo como área de difusão. Através da consciência do fluxo de energia tudo é possível e podemos esquecer o uso da força física. Com a meditação, esvaziamos a mente e com a prática do Shin’ei Taido também.

Com a mente e o interior pacificados, não há medo, nem raiva, nem angústia nem pânico; saímos das emoções e dos pensamentos. Se considerarmos isto como objetos do aprisionamento humano, entramos na dimensão da Consciencia, aonde nos conduz o Shin’ei Taido. Tanto homens, mulheres, pessoas de todas as idades podem se integrar nesta prática saudável.

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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Tsukahara Bokuden Takamoto
















Nascido em Kashima, na província de Hitachi (atual Prefeitura de Ibaraki) em 1489, foi considerado um famoso espadachim do inicio do período Sengoku. O significado de Kensei seria um “Santo da Espada”, porém o mais apropriado seria um espadachim que transcendeu as técnicas meramente físicas e penetrou na essência desta Arte, imbuído de dimensão espiritual extraordinária.

 Ele foi discípulo de seu pai, Yoshikawa (Urabe) Akitaka , que lhe ensinou o estilo  Kashima Chûko-ryû ; posteriormente aprende o estilo Tenshin Shoden Katori Shinto-ryu com seu pai adotivo Tsukahara Tosa-no-kami Yasumoto, estudando no Templo de Katori (que possui um forte vinculo com o Templo de Kashima).

 Enviado para o seu Musha shugyo (treinamento ascético do guerreiro), aperfeiçoa suas habilidades viajando por todo o Japão, fazendo estágios e estudos com vários mestres espadachins; assim como se dedicando ao desenvolvimento interior.
Foi instrutor do Shogun Ashikaga Yoshiteru, cujo clã unificou as duas coroas imperiais, e permaneceram no shogunato de 1337 a 1573; conhecido como Período Murimachi ou Ashikaga Bafuku. Outro aluno proeminente foi o governador de Ise, Tomonori Kitabatake.

Tsukahara Takamoto foi conhecido como um nobre rico e cavaleiro errante, até o momento em que se dedica a sistematizar o ensino das artes marciais da zona Kashima; alegando ter esta missão após uma inspiração divina de Takemikazuchi no kami, principal divindade da região de Kashima, assim como dos generais e militares desde o Reino dos Yamatos.

Está escrito que recebeu a inspiração com a frase “kokoro arata ni koto ni atare”, que o sentido literal seria manter a mente/coração como a de um principiante, frente a tudo.
Muitos alegam que este estilo é advindo de suas experiências de shugyōsha, durante o seu Musha shugyo. Mesmo assim, parece que mantinha as abordagens característica do Kashima no tachi e do Ichi no Tachi. 

incluindo abordagens para combater  Nomeia o estilo Kashima Shinto-ryu, ou,também, Mutekatsu-Ryu ("Vitória sem as mãos"); que passou a ser considerada uma nova esgrima. Embora excelente espadachim, sempre evitava confrontos diretos, explicando que sua Escola era a da Não-Espada.

É atribuido a Mestre Tsukahara a seguinte frase: “Mente Serena, não a habilidade, é o sinal de um samurai amadurecido. Um samurai, portanto, não deve ser nem pomposo nem arrogante.”

Morreu em Suka em 6 de março de1571, de causas naturais, sendo enterrado no templo local.

Boa Reflexão.

Oss.

Baseado em textos sobre Tsukahara Takamoto  Sensei

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A Tradição Marcial e o Kojiki




















Vários textos do século 20 citam o Kojiki como referencia sobre o início das Artes Marciais no Japão; uns citam que seria o inicio do Tegoi (o antecessor do Sumô), outros alegam ser os fundamentos do Aiki.

Segundo pesquisadores, o Kojiki teve várias compilações; existem referencias de autores como Aston (1956), que a primeira compilação conhecida foi feita em 620 AD e destruída em 650 AD. Posteriormente, Chamberlain (1973) cita que, em 712 AD, a Imperatriz Gemmyo patrocinaria uma compilação escrita em caracteres chineses adaptados à fonética japonesa.

O termo Kojiki tem várias traduções, conforme o idioma, mas no senso geral, seria “Crônica dos Fatos Antigos das Eras Primordiais” ou, simplesmente,  “ Fatos Antigos”. O que encontramos de ponto comum entre os pesquisadores, é que seu conteúdo fala a respeito do Mito da Criação, a Expedição do Imperador de Kyushu para Yamato (Nara), História e Mitos do período por volta dos anos 5-6 AD.

Os chineses escreveram relatos que seriam mais de cem nações no que era chamado de “Pais dos Wajin”(encontramos também a denominação “Reino de Ha”), no período de 207 AC a 7 DC. Entre estas datas, houve um processo de conquista por parte de determinados clãs, até a formação do Reino de Yamato. No período de 220-265, é descrito que os chefes de uma comunidade portavam o título de Uji-no-Kami; eram eles que oficiavam os cultos a divindade ancestral da comunidade.

Neste período de formação, o Japão tinha domínio sobre parte do território da atual Coréia, que perderam após 3 séculos de domínio, porem muitos clãs eram descendentes de famílias coreanas que optaram por residir no Reino dos Yamato, além de muitos chineses de excelente estirpe que vieram devido ao restabelecimento das relações entre a linhagem chinesa Tang e os Yamato. A capital Nara seria construída no estilo da capital do Reino Tang.

A região de Kashima se tornou a base da expansão dos Yamato, sendo que o Clã Nakatomi prestava reverência a Takemikazuchi-no-Kami, tido como Ujigami (Kami do Clã). Com o tempo os exércitos e generais Yamato prestavam reverencia aos kami de Kashima e Katori, sendo que Takemikazuchi-no-Kami, torna-se a principal divindade dos Yamato.

No Kojiki, encontramos uma descrição que Takemikazuchi no Kami prendeu as mãos de Takeminakata no Kami , e como se ele tivesse manejando um caniço de pesca, o arremessou. Takeminakata no Kami se torna divindade no Grande Santuário de Suwa, região aonde prometeu ficar após o confronto. E isto é tudo o que sabemos; de onde veio esta técnica, qual seria, que clãs conheciam esta técnica, para quem foi transmitido, tudo isto ainda é objeto de pesquisa.

A região de Kashima -Katori foi berço de excelentes Escolas de Bujutsu, como a do renomado Tsukahara Bokuden, conhecido por seu estilo Mutekatsu ryu (“A vitória sem as mãos”).

Boa Prática.

Oss.

Baseado em textos sobre a pré-história e a formação do Japão, no livro “Japão – Passado e Presente” de José Yamashiro.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O Discípulo e o Momento Presente



























Existe um conto na Tradição sobre um samurai que veio ver o lendário Mestre Miyamoto Musachi, e pediu-lhe para lhe ensinar o verdadeiro caminho da espada. Este último aceitou-o como discípulo, obrigando o samurai, a cortar e transportar lenha, buscar água de uma fonte remota. E assim foram todos os dias, mês após mês, durante três anos.

O samurai persistia pelo fato de observar seu corpo ficar mais ágil, mais resistente e mais forte; porém, depois de três anos , disse ao mestre que não suportava mais aquela rotina.

Então perguntou ao Mestre:

- “Mas que tipo de treinamento é este? Desde a minha chegada eu não toquei uma espada, só corto lenha e trago água o tempo todo. Quando vou iniciar o meu aprendizado?”

-“ Bem, vou ensinar a técnica como você deseja; pode entrar no Dojo e, todos os dias, de manhã até a noite, eu te ordeno que andes na borda extrema do tatame, um passo após outro, bem devagar e corretamente, ao redor da sala.”; respondeu o Mestre.

Desta forma, o Mestre ensinou a concentração em movimento, com foco em cada ação, tendo de fazê-lo perfeitamente; uma vez que os detalhes da técnica, truques, passos, são, de fato, secundários em relação à concentração.

- “Havendo suficiente concentração, um gesto, um único, é o bastante!”; repetia o Mestre.

Consequentemente, o discípulo caminhou ao longo da borda do tatame, com toda a atenção; assim o fez por mais um ano. Após esse tempo, disse ao seu professor:

-“ Eu sou um samurai, pratiquei muito a esgrima, eu encontrei outros professores e nenhum me ensinou como o senhor ensina. Por favor, me ensine o verdadeiro Caminho da Espada!”

O Mestre olhou para ele e apenas disse para segui-lo, levando-o para um local muito distante, aonde se encontrava um pedaço de madeira, colocado sobre um precipício que tinha uma profundidade assustadora. Ambos pararam e o Sensei apontou para a passagem, dizendo:

-“ Bem, é por aqui que deves passar, sobre este tronco de madeira.”

O discípulo samurai não entendia nada e, de frente para o abismo, hesitou, sem saber o que fazer. De repente, ouviu atrás de si o som de uma bengala; era um cego alheio à presença deles, passou ao lado deles e cruzou o abismo sem hesitação, tateando com sua bengala a árvore que servia de ponte.

  -“ Ah eu começo a entender, se um cego cruza este abismo assim, eu tenho que fazer o mesmo .”; pensou o samurai discípulo.

 Neste momento, o mestre disse:

-“ Por um ano, caminhastes todos os dias pela borda do tatame, que é mais estreito do que este tronco, assim deves atravessar, e só ter foco no local certo. Se focares o abismo, ficarás com o medo e ficarás paralisado, ou até mesmo cairás. Se focares em cada trecho, do Caminho, assim como faz o cego, já terás atravessado.”

Boa Reflexão.

Oss.

Baseado em textos sobre a Tradição e de Taisen Deshimaru Zenji

domingo, 9 de dezembro de 2012

A Arte Marcial e O Zen





















Sabemos que o Zen é o foco no aqui e agora, portanto não há lugar melhor do que o outro, todos são excelentes para treinar a nossa atenção e observar o nosso comportamento aos diferentes estímulos quando nos são apresentados. Mesmo no meio de uma multidão barulhenta é possível, se existe foco e observação: Zen é a prática contínua de consciência no presente.

Dojo é uma palavra japonesa que significa literalmente "lugar do caminho", referindo-se a uma caminhada interior, tanto no Zen como nas Artes Marciais japonesas, indicando que deve ser um lugar em que se visa o aperfeiçoamento  interior.

A prática do Zen é tomar consciência do momento presente realidade, perceber como ela é. Aqui e agora. Isto é tudo. É muito simples. A prática é para ser permanente, devemos trazer a nossa consciência para o momento presente, essa é a prática real.

Na prática do Budo, intuição e ação devem ocorrer ao mesmo tempo: não pode haver pensamento, não há até mesmo um segundo para pensar. Quando estivermos praticando, a intenção e ação devem ser simultâneas.

Deshimaru Sensei ensinava:

“Quando eu digo durante o Zazen: ‘Não se movam!’; isso significa que na verdade não se fixar em um pensamento, deixá-los passar. Permanecer em  perfeita estabilidade realmente significa não permanecer;  não se mover significa, na verdade, mover-se, não dormir. Isso é como um pião que gira: ele pode ser considerado imóvel, quando está em plena ação; só é possível ver seu movimento em uma parte do início e quando ele pára no fim. Assim, a tranqüilidade no movimento é o segredo do Kendo, o Caminho da espada. E o segredo do Budo e do Zen, é que ambos têm o mesmo sabor.”

Assim como alertava:

“Treinar o corpo é desenvolver resistência e durabilidade. Mas o espírito de competição e poder que preside sobre eles não é bom, ele reflete uma visão distorcida da vida. A raiz das Artes Marciais não está lá.”

Boa Reflexão.

Oss.

Baseados em artigos de Taisen Deshimaru Zenji sobre Zen e Artes Marciais

sábado, 1 de dezembro de 2012

Ilusão e Iluminação
























Nascido na Prefeitura de Saga de Kyushu, Deshimaru foi criado por seu avô, um antigo Samurai anterior à Revolução Meiji, e por sua mãe, devota da seita Jodo Shinshu do Budismo. Quando jovem, por curiosidade, estuda o Cristianismo por um longo tempo, antes de finalmente decidir voltar para o Budismo.  Em 1935, quando ele foi estudar Economia em Tóquio, conheceu o grande mestre do Soto Zen Kodo Sawaki, de quem seguirá os  ensinamentos, se dedicando integralmente à prática do Shikantaza (Zazen).

Nestes texto, Sensei nos explica sobre a Vacuidade e a Natureza dos Fenômenos:
“Ku soku ze shiki. Shiki soku ze ku, devemos ir além, transcender, ao mesmo tempo, Shiki (fenômenos, aquela realidade que podemos ver e sentir) e Ku (Vazio, Vacuidade).
Devemos estar além da diferença e similitude; devemos ir além da Natureza dos Fenômenos e da Vacuidade, além do pensamento e do não-pensamento. Nesse momento, atingimos a Consciência Hishiryo (A Consciência Cósmica).

A interação é a lei de manifestação do poder cósmico fundamental; ou seja, ao manifestar-se, o potencial cósmico se dispersa e materializa a energia cósmica, que se divide em parcelas e se dispõe de acordo com uma ordem regida pela lei da interdependência. Somente essa lei dá à matéria a aparência fenomenal.  Se olhamos para a Vacuidade, vemos também os Fenômenos (Ku soku ze shiki : a Vacuidade são Fenômenos); se vemos os Fenômenos, olhamos para a Vacuidade (Shiki soku ze ku: os Fenômenos são Vacuidade).

O Sutra do Hannya Shingyo, o Sutra Prajna Paramita, gira em torno dessa fórmula; se compreendermos tal relação tudo se tornará fácil. Não se trata de pensar com o cérebro, mas de compreendê-lo plenamente através do corpo. A partir dos fenômenos,  da nossa vida cotidiana, voltar a Vacuidade, Zazen. E da Vacuidade voltar aos Fenômenos para ajudar todos os seres, harmonizando-se com eles.

Se todos os dias nos concentrarmos uma ou duas horas no verdadeiro Zazen, poderemos mergulhar nos fenômenos, voltar ao verdadeiro eu e espalhar nossa sabedoria pela vida quotidiana; Zazen torna-se o leme do nosso movimento na vida.  A verdadeira concentração não é pensada nem não-pensada,está além do pensamento, o pensamento absoluto; é o retorno a Vacuidade original, por efeito da concentração.  A concentração na Vacuidade contém, virtualmente, a expansão nos fenômenos.; a expansão fenomenal dos Fenômenos contém, virtualmente, a volta à concentração na Vacuidade; encontramos na Vacuidade o infinito e o eterno. Desse modo, a Vacuidade é sinônimo de Nirvana, outra coisa não é senão o Caminho do Meio.

Mujo: significa mudança, não-nascido, sem começo nem fim: sem nascimento, sem fim, somente mudança.  Não há começo, não há fim do cosmo. Num rio, vemos bolhas na água da corrente; a água torna-se bolha e torna-se água de novo.  Quando morremos, nossa vida não acaba; retornamos ao Cosmo, como as bolhas que estouram no rio. Devemos compreender a vida eterna.

Com freqüência, as pessoas amam a pureza e detestam a sujeira. Na sua origem, porém, todos os fenômenos, todas as existências do cosmo não são puras nem impuras. Tudo é idêntico. Mas pelo comportamento e pelo pensamento, as pessoas sujam e criam as separações. Em nosso globo, a terra, as montanhas, os rios, as florestas, os oceanos, etc; tudo é sem sujeira e sem pureza, é a nossa natureza. A purificação, a Terra Pura não existe em outro local, nem depois da morte; A Terra Pura há de ser construída aqui e agora.
Se tivermos o espirito bom, a consciência correta, a palavra exata, o comportamento adequado, se a boca, o corpo, a consciência, essas três atitudes forem corretas, o meio será justo. Só que, pela percepção, pelos sentidos, pela consciência, pelas sensações, tudo muda. As coisas tornam-se às vezes puras, às vezes impuras, os desejos nascem...

Pureza, sujeira, não se pode decidir. Nossa personalidade, nosso espírito original é sem pureza e sem sujeira, assim como é o Cosmo.  No nascimento, a consciência do bebê não está suja. Ele ignora a pureza ou as sujeiras. Mas, depois, a hereditariedade dos pais, o ambiente, as pessoas que o cercam, a educação não raro errada, influem nele progressivamente. O karma ignora a compaixão, o resultado, o efeito e vice-versa. Onde está o erro? O mérito? Só a consciência do ser humano decide a respeito dessas concepções.

Não há dualidade. Sem começo nem fim. Sem sujeira nem pureza. Sem crescimento nem decrescimento. É como a metáfora da água e das ondas: pela manhã há tempestade esse formam grandes ondas no mar. Quando a tempestade acabar, as ondas diminuirão, mas a água do mar não terá crescido nem decrescido.

A impermanência é a mudança perpétua de todas as coisas, portanto a não-entidade, a existência sem substância própria. No momento em que nasce, a chama morre; a chama que arde neste instante não tem nada em comum com a do instante precedente; a chama é a representação viva da não-substancialidade.

O potencial é o único dado permanente contido em cada uma das formas do manifestado, impermanente e fruto da interdependência; o potencial é permanente porque é eterno em tudo o que é e tudo o que não é. É independente porque é a causa e a condição de tudo o que existe; é o motor que produz e faz progredir o manifestado. O potencial existe em cada uma das formas-forças e em todas as relações que as ligam, desde o infinitamente pequeno até o infinitamente grande.

Dentro de toda manifestação permanece a plenitude da potencialidade, a qual contém a totalidade da manifestação. Essa potencialidade é o poder cósmico fundamental, a Vacuidade, o não-manifestado e é ainda o grande Tudo e o manifestado no que o Tudo e o manifestado têm, em sua mudança evolutiva, de não-manifestado e de manifestação em potência, como a semente é o não-manifestado da árvore e a contém em potência.  Seja como for, todas as existências são Vacuidade infinita (essência); tudo existe sem existir.  Tudo só existe na mudança e por ela, pois o que subentende a mudança é o potencial; devemos compreender que Mujo (a mudança) é a Eternidade.

No Zen, não há ruptura entre o material e o espiritual; toda impressão é, ao mesmo tempo, espiritual, e fica registrada nos neurônios do cérebro em forma de informação passível de atualização a qualquer momento.  O Satori só existe em função da ignorância e das ilusões. Desse modo, a ignorância e a ilusão são a condição necessária da existência do Satori. Não é necessário querer eliminar a ignorância, pois ela não tem existência real em nós. A ilusão não é uma coisa fixa, nem a substância de nosso espírito, mas um visitante, uma coisa que vem do exterior; é assim no tocante à cólera, à ignorância, ao medo, à ansiedade, à paixão, aos desejos: sem o vento, as ondas não aparecem na superfície do lago. No que se refere às ilusões, é a mesma coisa. Se não recebermos estímulos do exterior, elas não se elevarão: visitantes vêm do exterior. Ainda que recebamos estímulos do ambiente, se nesse momento preciso não estivermos apegados, a verdadeira Sabedoria aparecerá.
O sofrimento é tanto físico quanto psicológico, sentimental, intelectual ou racional. Desde que não podemos satisfazer nossos desejos, sofremos. Quanto mais aumentam os desejos, tanto mais se complicam os sofrimentos.

Todos os fenômenos cósmicos, todas as existências cósmicas constituem o potencial temporário existente, ou manifestado, atualizado no momento. Cada qual depende da lei da interdependência, em que a multiplicidade dos fenômenos depende da multiplicidade das relações que os subentendem. Por isso mesmo, ainda que os fenômenos temporários tomem forma ao nascer, se transformem e desapareçam, sua substância não foi produzida nem destruída; tampouco aumentou ou diminuiu. Pois essa substância é o próprio poder cósmico fundamental, eternamente imutável, potencialidade suprema da qual procedem todas as potencialidades fenomenais, existências em perpétua mudança; suas formas aparecem e desaparecem ao sabor das interferências cósmicas rigorosamente ordenadas, depois desaparecem, desagregando-se, liberando a essência que reencontra a própria origem.”

Boa Reflexão.

Oss.

Taisen Deshimaru Zenji em " O Anel do Caminho"

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Bodhidharma e a Natureza Humana



Pesquisando sobre o Tratado das Duas Entradas e das Quatro Práticas, cuja autoria é atribribuida à Bodhidharma, encontramos a citação de que a Natureza Búdica existe em todas as pessoas e que se deve percebê-la individualmente através da meditação  e não através do estudo de Sutras, execução e repetição de ritos, de boas ações, veneração de Budas, etc.

Existem evidências de que Bodhidharma tinha o Sutra Lankavatara como referência para seus ensinamentos, enfatizando a auto-iluminação através do abandono das palavras e pensamentos, além da prática da meditação; enquanto as práticas da época pregavam um processo gradual do aperfeiçoamento da pessoa.

Na Tradição, encontramos algumas frases atribuídas à Bodhidharma, que traduziriam sem pensamento:

"Ignorância e Sabedoria são idênticas e não diferentes. (...)

Três venenos infundem a morte e a destruição: a ganância, o ódio e a ilusão: o Caminho Moral, a Meditação e a Iluminação são as maneiras de combatê-los. (...)

Muitos sabem o Caminho, são poucos os que vão acabar percorrendo. (...)

As pessoas deste mundo estão iludidas. Elas estão sempre desejando alguma coisa - sempre, em uma palavra, buscando. (...)

Mas, enquanto o sucesso e o fracasso dependem de condições, a mente não cresce nem diminui. (...)

Se você usar sua mente para encontrar um Buda, não poderá ver o Buda. (...)

Quando a mente pára de se mover, ela entra em Nirvana. Nirvana é uma mente vazia; quando não há ignorância, os Budas alcançam o Nirvana. Quando não há aflições, os Bodhisattvas entrar no lugar do despertar. (...)

E o Buda é a pessoa que está livre: livre de planos, livres de preocupações. (...)

 Se o homem se mantem em harmonia com o Universo; todos desequilíbrios deixam de existir."

Boa Reflexão.

Oss.

Baseado em textos sobre Bodhidharma e Huike.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O Arqueiro e O Caminho do Coração




























Reproduzo aqui um conto que li, que ilustra muito bem como o ego e o medo, podem ser transcendidos pelo Caminho do Coração:

“Havia no alto das montanhas da China antiga, um grande mestre na arte do arco e flecha que por muitos anos ensinava seus discípulos a manejarem o arco como arte, maestria e meditação.

Já havia ensinado a muitos alunos, quando um príncipe de uma grande família da região do norte do país resolveu ir até ele para se aperfeiçoar na arte do arco e flecha. Era um rapaz forte, de opinião forte, e não aceitava qualquer ensinamento sem que tivesse uma boa explicação.

O mestre muito paciente lhe ensinou várias técnicas e o rapaz era realmente perseverante e treinava intensamente, sem descanso.
Seus amigos ficavam espantados, pois o príncipe rapidamente se tornou o aluno mais preciso e o mais aguçado na arte da mira e na precisão da flecha. Era de pouca conversa e sempre estava treinando dia e noite.

Uma noite o mestre chegou perto dele e disse:
- Huang Kiu, porque você está treinando tão intensamente? Com quem está competindo?
- Ninguém, disse o príncipe, estou apenas treinando, pois quero ser o melhor arqueiro da China, e serei.

Então, disse o mestre, veja como sua mente está presa nesse desejo, o desejo de ser melhor que todos os outros. Porque não apenas se aperfeiçoar na arte do arco e flecha e respeitar o grande Tao. A flecha flui por si mesma, não precisa nenhum esforço. O dia nasce por si mesmo, a noite nasce por si mesma. Nenhum esforço é necessário. Onde há esforço existe a mente envolvida, controlando, o fluxo foi quebrado.

- Isso não me importa, disse Huang Kiu. Tudo isso é bobagem. Quero me tornar o melhor arqueiro e vou. Na verdade, vejo que já sou o melhor dos seus alunos aqui, agora só me falta superar o senhor. Quando conseguir, partirei. Terei cumprido meu ciclo aqui.
- Então, disse o mestre, treine mais, treine muito mais, e você me superará.

E assim foi feito. Huang Kiu treinava alucinadamente, dia e noite para superar o seu mestre. Os outros alunos se afastaram dele, e viram que ele precisava ter sempre alguém para superar, isso lhe dava a sensação de poder, e ele se sentia desafiado.

Um dia, Huang Kiu chegou perto do seu mestre e disse:
- Mestre, sinto que já o alcancei. Vamos por a prova?
- Sim, claro vamos por a prova sua superioridade, disse o mestre.
- Então vamos até o alvo mais distante que lhe mostrarei que já estou pronto.
- Sim, disse o mestre, vamos ao alvo mais distante.

E foram os dois, ao grande campo verde, onde o alvo estava pronto a espera dos dois arqueiros. Era realmente distante e somente um grande arqueiro conseguiria acertar o alvo naquela distância.

Huang Kiu se posicionou e disparou a flecha, que foi certeira na mosca.
Não se dando por satisfeito, se posicionou novamente e disparou nova flecha que acertou rente a primeira.

O mestre ficou impressionado e disse:
-Huang Kiu você foi muito bem, muito bem mesmo...mas ainda não está pronto.
- Como não, disse Huang Kiu, acertei na mosca a essa distância, foram perfeitos meus disparos. Não compreendo o que me falta?
- Venha comigo, e lhe mostrarei o que é a maestria.

E foram os dois pelo penhasco caminhando, subindo pelas montanhas até que se depararam com uma ponte frágil que ligava dois morros, isso a uma grande altura, e lá em baixo passava um rio. O vento soprava forte, as árvores e a ponte balançavam,
Foi então que o mestre disse:
- Vê, vai até o meio dessa ponte e dali acerte aquela árvore do outro lado, quero ver a sua destreza de arqueiro aqui nesse lugar, nessas condições.

Huang Kiu se assustou: Tenho medo de altura, essa ponte não é segura, o vento está forte, tudo balança, posso cair, nem sequer vejo bem o outro lado a neblina me impede de ver com clareza. Isso é uma bobagem não vou fazer, sou um grande arqueiro não preciso desse treinamento nessas condições. E se virou para ir embora, quando viu o mestre no meio da ponte lançando a flecha com total tranquilidade e precisão mesmo em meio a toda aquela diversidade.

Huang Kiu parou, ficou em silencio. Ali naquele instante percebeu que não sabia nada sobre o caminho do arco e flecha. Ali viu como seu ego se havia inflado e ele pode compreender que a mente serena é capaz de vencer todas as adversidades do momento e permanecer fixa no alvo, mesmo que tudo a volta esteja revolto, a paz interior não se confunde, não se abala, ela é sempre presente e age de acordo com o momento, em perfeita sintonia e precisão.

Quando o mestre retornou, Huang Kiu caiu aos seus pés e lhe pediu perdão por ter sido tão arrogante:
- Mestre, me perdoe, agora compreendo o que queria me ensinar. Vejo que fui um tolo e que não é por aquisição de técnica e treinamento que se chega a maestria, mas pelo esvaziamento do ego e pelo silencio da mente... pela ausência de esforço e por se estar em paz, sereno e centrado... a flecha segue o seu caminho por sí só...
O mestre olhou no fundo dos seus olhos, e lhe disse:
- Vá, agora você aprendeu a lição. Agora você é um verdadeiro arqueiro. Não há nada mais a aprender. O Verdadeiro Arqueiro dispara com o Coração..."

Boa Reflexão.

Oss.

sábado, 10 de novembro de 2012

A Mente e O Segredo da Espada






















Shirata Rinjiro Sensei , ensinava aos seu discípulos que a eficácia da técnica residia em uma prática corporal e mental sinceras, para tal contava uma estória que tinha aprendido com Ueshiba O-Sensei.

Um jovem guerreiro visitou um mestre yamabushi, que vivia nas montanhas , que diziam ter poderes sobrenaturais e que tinha a fama de possuir uma técnica  que lhe conferia  o que chamavam de "Espada da Invencibilidade". O rapaz ansiava por se tornar um grande guerreiro e o melhor dos mestres no manejo das armas.

O jovem, chegando à casa do mestre, pediu que ele que lhe revelasse o segredo da espada; o mestre disse que era possível apenas se o jovem se submetesse a determinados treinamentos: os yamabushi passam anos de sua vida executando práticas de ascetismo, levando uma vida frugal, entoando mantras e orações.

O mestre ressaltou que além destas práticas diárias, eram importantes a meditação e a prática com foco no momento presente; isto poderia levar vários anos e o jovem deveria visitá-lo de tempos em tempos para avaliar sua evolução.

O jovem concordou com as condições, ficou um tempo aprendendo com o mestre e, depois, partiu para praticar sozinho tais ensinamentos; de ano em ano, por vinte anos, visitava o mestre e retornava à sua vila.

Na última visita ao mestre, este disse que iria lhe mostrar a espada que chamavam de mágica, como prometido; o discípulo a tomou em suas mãos, a segurou por instantes e logo a devolveu.  Naquele instante percebeu que não precisava mais de uma arma ou objeto como aquele, compreendia que eram atributos fantasiosos da mente.

Yamaguchi Sensei contava que quando observamos alguém treinar, visto a partir do exterior, uma espada ainda se parece com uma espada e um bastão com um bastão; porém o que é mantido nas mãos ou o que percebemos do exterior é apenas uma imagem, uma projeção da mente. Sensei alertava que o erro é nos fixarmos neste aspecto, porque o que conta é como usar esses instrumentos, o instante presente e mente vazia; O-Sensei gostava de demonstrar isto.

Stevens Sensei nos explica que “Se permanecermos centrados na Essência da Criação, certamente triunfaremos em todos os empreendimentos; precisamos compreender essa verdade aqui e agora.”; “um estado de ser que transcende o tempo e o espaço.”

Termino com as palavras de O-Sensei:

“Se tudo que você pensar é vencer
Você vai de fato perder tudo.
Saiba que você e seus adversários trilham o mesmo caminho.
Envolva os adversários com amor,
Entregue-se ao fluxo natural das coisas,
Unifique Ki, corpo e mente,
E apague a fronteira entre o eu e o outro.
Isso abre possibilidades ilimitadas.
Aqueles que são iluminados por estes princípios
São sempre vitoriosos.
Ganhar sem lutar
É a verdadeira vitória,
A vitória sobre si mesmo,
Uma vitória rápida e segura.
Vitória é harmonizar o eu e o outro,
Para ligar-se ao Divino,
Para unir-se ao Amor Divino,
Para se tornar o próprio Universo.”

Boa Reflexão.

Oss.

Baseado em entrevistas de Alain Guerrier Sensei, Shirata Rinjiro Sensei e John Stevens Sensei; textos sobre Ueshiba O-Sensei.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A Consciência e A Prática

























Gleason Sensei escreveu um artigo em que falava sobre a etiqueta no Dojo, aonde seria o ínicio da transição do mundo exterior para o interior, para o despertar da consciência, que começa pela reverência.

A reverência sincera ao Shomen, Mestres e companheiros, demonstra nossa humildade; conforme nos ensinava Inoue Doshu; que ainda aconselhava a prática da oração interior.

Bater as palmas da mãos simboliza a unidade das forças dinâmicas da Natureza (Yin e Yang). O ato de juntar as mãos é conhecido como Musubi ou Gassho; representa a unificação do Yin com o Yang, formando o Tao (Do) e, ao mesmo tempo, nossa Gratidão

 Segundo Ueshiba O-Sensei, todo movimento no Dojo é uma oração, uma maneira de unir a própria vontade com a vontade universal.

Yamaguchi Sensei ensinava nos seminários para os alunos mais avançados:

“A verdadeira dificuldade do Aikidô, na realidade, é a necessidade de conservar sempre a Mente de Iniciante (Shoshin). A mera repetição daquilo que aprendeu não garante, de maneira nenhuma, o progresso. Os Antigos Mestres disseram que a pessoa deve treinar a si mesma através da repetição contínua e essa repetição não pode ser mecânica.

Devemos extirpar tanto os maus hábitos assim como os bons (…), estejam eles na técnica, na vida diária ou nas atitudes. Geralmente os maus hábitos são facilmente reconhecidos por todos. Quantos aos bons, é quando achamos que não precisamos de conselhos, criticas e correções, as quais devemos receber com modéstia e despretensão.

Permanecer firme e forte, sem nenhuma insensibilidade ou inflexibilidade; ter um estado de total aceitação e mesmo assim, não perder a consciência de sua própria existência.”

Termino com as palavras de Ueshiba O-Sensei:

“Ao praticar com alguém que tenha realizado o principio do Aikido (Takemusubi Aiki) dentro do seu ser, todos os maus sentimentos e dúvidas são removidos e você obtém uma maior compreensão de si mesmo.”

Boa Reflexão.

Oss.

Baseado em artigos de willian Gleason Sensei e entrevistas de Yamaguchi Sensei.

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